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ARTE é isso II

2 de outubro de 2017 Deixe um comentário
Figura 1 – Zé do Caroço, ao centro. Fonte: Documentário "A Voz do Pau da Bandeira" [1].

Figura 1 – Zé do Caroço, ao centro. Fonte: Documentário “A Voz do Pau da Bandeira” [1].

Nesses tempos em que se criam automaticamente letras de músicas através de programas de computador [2] [3] [4], precisamos mostrar o que pode ser considerado como ARTE. Tem um samba de Leci Brandão que é fantástico: Zé do Caroço. Ainda mais quando ouvido na voz de Seu Jorge, que reduziu o andamento e valorizou toda a beleza e potência da letra:

Zé do Caroço existiu mesmo, viveu até 2003. Era o policial aposentado José Mendes da Silva (figura 1, ao centro) e morou a partir de 1958 no morro do Pau da Bandeira, ao lado do Morro dos Macacos, na Vila Isabel, Rio de Janeiro. Recebeu o apelido devido aos nódulos (caroços) que tinha nas juntas, por causa de um tipo de reumatismo, por isso que se aposentou cedo.

Dedicado às causas de sua comunidade, colocou um alto-falante no alto de seu barraco, para transmitir notícias importantes aos moradores do morro. Como a letra da música diz, ele “malhava o preço da feira” (reclamava dos preços altos). Também divulgava solicitações de ajuda mútua, como convites para participar de mutirões de construção. Zé do Caroço mantinha um veículo de informação muito mais pé no chão e identificado com a comunidade, do que qualquer coisa vinda de fora.

Até que um dia, a esposa de um militar reclamou que o barulho do serviço de alto-falante a incomodava para assistir novela e queria que a polícia acabasse com aquilo. Essa história chegou aos ouvidos de um jornalista d’O Dia (Cláudio Vieira, provavelmente), que a recontou para Leci Brandão.

Leci Brandão compôs a música em 1978, mas não conseguiu gravar porque a Polydor (Polygram/Philips) queria que fizesse sambinhas românticos e melosos. Ela saiu da gravadora e só conseguiu registrar o samba em 1985, pela Copacabana (figuras 2 e 3).

Figura 2 – Capa do primeiro disco de Leci Brandão pela Copacabana, em 1985.

Figura 2 – Capa do primeiro disco de Leci Brandão pela Copacabana, em 1985.

Figura 3 – Contracapa do primeiro disco de Leci Brandão pela Copacabana, em 1985.

Figura 3 – Contracapa do primeiro disco de Leci Brandão pela Copacabana, em 1985.

A música “Zé do Caroço” foi regravada por muita gente (Art Popular, Grupo Revelação, Maryana Aydar, Ana Carolina, etc.). Em minha opinião, a releitura de Seu Jorge é que valorizou este samba, apesar de não ser dançante como a versão original. Há um trocadilho interessante sobre a influência da TV, confira:

Zé do Caroço – Leci Brandão

Num serviço de alto-falante
No morro do Pau da Bandeira
Quem avisa é o Zé do Caroço
Amanhã vai fazer alvoroço
Alertando a favela inteira

Ai! Como eu queria que fosse Mangueira
Que existisse outro Zé do Caroço
Pra falar de uma vez pra esse moço
Carnaval não é esse colosso
Nossa escola é raiz, é madeira

Mas é morro do Pau da Bandeira
De uma Vila Isabel verdadeira
E o Zé do Caroço trabalha
E o Zé do Caroço batalha
E que malha o preço da feira

E na hora que a televisão brasileira
Destrói toda a gente com sua novela
É que o Zé bota a boca no mundo
Ele faz um discurso profundo
Ele quer ver o bem da favela

Está nascendo um novo líder
No morro do Pau da Bandeira
Está nascendo um novo líder
No morro do Pau da Bandeira (tris)

Num serviço de alto-falante
No morro do Pau da Bandeira
Quem avisa é o Zé do Caroço
Que amanhã vai fazer alvoroço
Vai zoar com a favela inteira

Ai! Como eu queria que fosse Mangueira
Que existisse outro Zé do Caroço
Pra falar de uma vez pra esse moço
Carnaval não é esse colosso
Nossa escola é raiz, é uma madeira

Mas é morro do Pau da Bandeira
De uma Vila Isabel verdadeira
E o Zé do Caroço trabalha
E o Zé do Caroço batalha
E que malha o preço da feira

E na hora que a televisão brasileira
Distrai toda a gente com sua novela
É que o Zé bota a boca no mundo
Ele faz um discurso profundo
Ele quer ver o bem da favela
Está nascendo um novo líder
No morro do Pau da Bandeira

Está nascendo um novo líder
No morro do Pau da Bandeira (tris)
Num serviço de alto-falante …

O serviço de alto-falante do Pau da Bandeira funcionou de 1970 a 1980 e é hoje uma rádio comunitária, mas não foram encontrados maiores dados sobre a situação atual. Há um documentário intitulado “A Voz do Pau da Bandeira” [1], feito em iPhone, que entrevistou dois filhos de Zé do Caroço e conta um pouco dessa história:

Abaixo, a versão original do samba “Zé do Caroço”, com Leci Brandão. Detalhe é que a imagem que o vídeo mostra é a capa do último disco que ela gravou pela Polydor (“Essa tal criatura”, figura 4), observe o selo no canto inferior direito das imagens abaixo:

 

Figura 4 – Capa do último disco de Leci Brandão pela Polydor, em 1980: "Essa tal criatura".

Figura 4 – Capa do último disco de Leci Brandão pela Polydor, em 1980: “Essa tal criatura”.

Leci explica como surgiu a música, em dois depoimentos. Para conhecê-la melhor, acesse as referências [5] e [6].

Referências

[1] Jaqueline Macoeh – Como surgiu o curta “A voz do Pau da Bandeira” – http://jaquelinemacoeh.blogspot.com.br/2016/02/jaqueline-macoeh-participar-do-curta.html

[2] Song Lyrics Generator – Automatically generate lyrics using keyboards of your choicehttps://www.song-lyrics-generator.org.uk/

[3] Tra-la-lyrics – Automatic generation of song lyrics on semantic domainhttps://www.degruyter.com/view/j/jagi.2015.6.issue-1/jagi-2015-0005/jagi-2015-0005.xml

[4] Cornell University Library – Evaluating creative language generation: The case of Rap Lyric Ghostwriting https://arxiv.org/abs/1612.03205

[5] Leci Brandão – Site oficial – https://www.lecibrandao.com.br

[6] Wikipedia – Leci Brandão – https://pt.wikipedia.org/wiki/Leci_Brand%C3%A3o

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ARTE é isso

18 de setembro de 2017 Deixe um comentário

Em tempos de tantas dúvidas sobre o que é arte, além de músicas em cujos shows só falta exibir sexo explícito – porque as letras já sugerem – é interessante relembrar o que pode ser feito quando se tem algo importante a dizer.

Pungente. É a palavra que melhor define este vídeo de Melody Gardot, Preacherman (pregador, padre, etc.). A música e o vídeo formam uma potente sinergia, que deixa cada tom de voz, cada riff de guitarra no lugar certo, é impressionante.

 

É um tributo de Melody Gardot ao legado de Emmett Till, um menino de 14 anos que em 28 de agosto de 1955 foi cruelmente assassinado, no Mississipi. O menino teria flertado com uma jovem branca. O vídeo foi lançado em 2015, 60 anos depois da morte de Emmett, quando muitos questionavam a ação da polícia americana, que comprovadamente mata negros em percentuais superiores ao seu peso demográfico. Em 2014, a população de Ferguson rebelara-se contra isso, devido a outra morte estúpida.

A profunda natureza de nossa existência é o que nos habilita, a qualquer momento, a conectar com qualquer pessoa, em qualquer lugar. A história está aí para nos lembrar até onde chegamos, todos os dias nossa jornada é continuar com esse progresso de nos tornarmos mais sábios, mais compassivos e mais seres humanos. Relembrar Emmett através da música é uma forma de frisar às pessoas que não há necessidade de continuar com crimes sem sentido. Raça e racismo não andam de mãos dadas. Nós somos somente uma raça: humana –diz Melody Gardot.

Melody Gardot passou a dedicar-se à música como forma de suplantar as dores e as sequelas de um terrível acidente, aos 19 anos, atropelada enquanto andava de bicicleta. O traumatismo craniano causou perda de memória e de capacidades básicas, como andar e falar, que teve de reaprender. O acidente também causou hipersensibilidade ao som e fotossensibilidade (ela não tolera luz, anda sempre de óculos escuros), além de vertigem cinética, obrigando-a ao uso de bengala.

A música é que a ajudou a atravessar aqueles dolorosos dias. Nosso Herbert Vianna que o diga.

Para conhecer mais a cantora e compositora, que trafega entre o jazz, soul, bossa nova, etc. – ela já veio várias vezes ao Brasil – a página oficial é: http://melodygardot.co.uk/

Uma excelente resenha da música Preacherman está no Pancakes and Whiskey (Panquecas e Uísque): http://pancakesandwhiskey.com/2015/06/04/melody-gardot-releases-a-powerful-must-see-video-for-preacherman/

O perfil dela na Wikipédia portuguesa: https://pt.wikipedia.org/wiki/Melody_Gardot

E uma entrevista em português: http://www.carloscalado.com.br/2009/07/melody-gardot-um-modo-tragico-de-virar.html

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