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Músicas para enlevar

11 de junho de 2020 Deixe um comentário

A internet, às vezes, pode ser muito chata, devido à segmentação, que é o ato deliberado de separar, classificar qualquer coisa em caixinhas. Por exemplo, os diversos estilos musicais.

Sou contra a segmentação, porque dirigir, separar e escolher de antemão o que uma pessoa deve gostar, ver ou comprar, significa que alguém pensa por ela. Aos poucos, reduzem o universo de escolha e diminuem a quantidade de opções, sem realmente dar lugar para o diferente.

Como determinar que aquele que gosta de música popular nunca desejará rock, blues, bossa nova, nem um grande instrumentista? Como saber se alguém poderia gostar da kalimba, sem nunca tê-la ouvido? Experiências sensoriais devem ser variadas e sempre incentivadas, como acontece na Natureza. Afinal, diversidade não é somente preferência sexual. E música não é só esse gritedo sintetizado que se houve hoje em dia.

Se não fosse a segmentação:

– Teríamos canais com verdadeira liberdade, onde poderíamos ter contato com coisas agradáveis e que não esperamos;

As músicas seriam muito mais variadas e realmente motivadoras da cultura, e não esse desfile de estrangeirismos e obscenidades, como se a vida fosse só isso;

Os concursos musicais poderiam revelar verdadeiros talentos, em vez de iludir, pois hoje dependem da preferência do contratante e dos ajustes corretos do afinador e vibrato automáticos;

O caldo cultural resultante seria bastante heterogêneo e formaria uma sociedade com maior bom senso, o que dificultaria a existência de extremismos;

Seríamos mais críticos com o que nos é oferecido, fossem produtos de consumo, entretenimento ou serviços públicos.

Tudo passa pela segmentação. A grande mídia vive disso.

Quando a informação vem sempre com o mesmo viés, todo enfoque diferente tende a parecer falso. É assunto já estudado há tempos, sabe-se muito bem que isso faz aumentar o sectarismo – sectário é alguém intolerante, defensor obstinado de qualquer sistema. E chega-se ao ódio. Por enquanto, só com palavras. Está ficando perigoso.

Precisamos libertar-nos de certas amarras. A música é excelente para isso, e por isso mesmo é tão controlada. Digamos que você queira ouvir algo para lhe enlevar. Enlevo é encantamento, arrebatamento, êxtase. Existe algum lugar que classifica música assim, sem que lhe mande para uma lista gospel? Não, porque estão mais atentos ao modo dos músicos tocarem, em vez dos efeitos que a música produz. Por isso que há sons que se tornam clássicos, pois ao longo dos anos só se confirma a qualidade do trabalho. Obras de longa vida não interessam comercialmente, o que se quer é músicas consumíveis, que sejam vendidas e trocadas a todo momento. Porque música boa também pode despertar desejos, como a vontade de ter uma vida menos miserável.

Esta é minha primeira playlist, bem curtinha – somente 11 músicas – que intenta encantar aquele que a ouvir. Se puder, curta num horário tranquilo e silencioso, talvez à noite. São quatro excelentes artistas, que não aparecem facilmente por aí. O que eles têm em comum é sua competência, são muito bons no que fazem.

A primeira música é de Noa, uma cantora israelense que regravou a música tema do filme “A vida é bela”, de Roberto Benigni e inseriu uma bela letra, criada por ela e Gil Dor. Aquele vocal, dá arrepios e vontade de cantar junto… O vídeo também é um primor, com os lindos desenhos em areia de Ilana Yahav.

Depois, conheça uma gata, literalmente, porque toca guitarra com as unhas: Lianne La Havas, inglesa de sangue grego e jamaicano. Além do vocal gostoso, a quantidade de harmonias que essa menina tira do instrumento, sem olhar, é impressionante, tem uma penca de músicas legais como Au Cinéma, No Room for Doubt, What You Don’t Do, Tokyo e Wonderful.

Você já imaginou um pianista que se apresenta em público de roupão e pantufas? Ele pode, é o gênio canadense Chilly Gonzales, que vive na Alemanha. Ouça a maravilhosa Rideaux Lunaires (Cortinas de sonho, em tradução livre). Na fábrica de pianos Steinway & Sons, em Hamburgo, ele tocou outra linda melodia: White Keys. No palco, interpretou visceralmente a música Orégano, até imaginei-me polvilhando uma pizza… Chilly Gonzales é o cara que andou dando uma mão para o grupo Daft Punk, famoso pela ótima música Get Lucky. No Youtube você encontra também uma hilária “batalha” dele com o pianista Jean Francoise Ziegel.

Por último, o baterista italiano Aldo Romano, que já foi roqueiro e hoje toca jazz. Dele vem duas músicas absolutamente maravilhosas: Viso di Donna (Rosto de mulher) e Anno Bom (Ano bom – foi em 2014, não agora…).

Delicie-se!!

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