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ARTE é isso II


Figura 1 – Zé do Caroço, ao centro. Fonte: Documentário "A Voz do Pau da Bandeira" [1].

Figura 1 – Zé do Caroço, ao centro. Fonte: Documentário “A Voz do Pau da Bandeira” [1].

Nesses tempos em que se criam automaticamente letras de músicas através de programas de computador [2] [3] [4], precisamos mostrar o que pode ser considerado como ARTE. Tem um samba de Leci Brandão que é fantástico: Zé do Caroço. Ainda mais quando ouvido na voz de Seu Jorge, que reduziu o andamento e valorizou toda a beleza e potência da letra:

Zé do Caroço existiu mesmo, viveu até 2003. Era o policial aposentado José Mendes da Silva (figura 1, ao centro) e morou a partir de 1958 no morro do Pau da Bandeira, ao lado do Morro dos Macacos, na Vila Isabel, Rio de Janeiro. Recebeu o apelido devido aos nódulos (caroços) que tinha nas juntas, por causa de um tipo de reumatismo, por isso que se aposentou cedo.

Dedicado às causas de sua comunidade, colocou um alto-falante no alto de seu barraco, para transmitir notícias importantes aos moradores do morro. Como a letra da música diz, ele “malhava o preço da feira” (reclamava dos preços altos). Também divulgava solicitações de ajuda mútua, como convites para participar de mutirões de construção. Zé do Caroço mantinha um veículo de informação muito mais pé no chão e identificado com a comunidade, do que qualquer coisa vinda de fora.

Até que um dia, a esposa de um militar reclamou que o barulho do serviço de alto-falante a incomodava para assistir novela e queria que a polícia acabasse com aquilo. Essa história chegou aos ouvidos de um jornalista d’O Dia (Cláudio Vieira, provavelmente), que a recontou para Leci Brandão.

Leci Brandão compôs a música em 1978, mas não conseguiu gravar porque a Polydor (Polygram/Philips) queria que fizesse sambinhas românticos e melosos. Ela saiu da gravadora e só conseguiu registrar o samba em 1985, pela Copacabana (figuras 2 e 3).

Figura 2 – Capa do primeiro disco de Leci Brandão pela Copacabana, em 1985.

Figura 2 – Capa do primeiro disco de Leci Brandão pela Copacabana, em 1985.

Figura 3 – Contracapa do primeiro disco de Leci Brandão pela Copacabana, em 1985.

Figura 3 – Contracapa do primeiro disco de Leci Brandão pela Copacabana, em 1985.

A música “Zé do Caroço” foi regravada por muita gente (Art Popular, Grupo Revelação, Maryana Aydar, Ana Carolina, etc.). Em minha opinião, a releitura de Seu Jorge é que valorizou este samba, apesar de não ser dançante como a versão original. Há um trocadilho interessante sobre a influência da TV, confira:

Zé do Caroço – Leci Brandão

Num serviço de alto-falante
No morro do Pau da Bandeira
Quem avisa é o Zé do Caroço
Amanhã vai fazer alvoroço
Alertando a favela inteira

Ai! Como eu queria que fosse Mangueira
Que existisse outro Zé do Caroço
Pra falar de uma vez pra esse moço
Carnaval não é esse colosso
Nossa escola é raiz, é madeira

Mas é morro do Pau da Bandeira
De uma Vila Isabel verdadeira
E o Zé do Caroço trabalha
E o Zé do Caroço batalha
E que malha o preço da feira

E na hora que a televisão brasileira
Destrói toda a gente com sua novela
É que o Zé bota a boca no mundo
Ele faz um discurso profundo
Ele quer ver o bem da favela

Está nascendo um novo líder
No morro do Pau da Bandeira
Está nascendo um novo líder
No morro do Pau da Bandeira (tris)

Num serviço de alto-falante
No morro do Pau da Bandeira
Quem avisa é o Zé do Caroço
Que amanhã vai fazer alvoroço
Vai zoar com a favela inteira

Ai! Como eu queria que fosse Mangueira
Que existisse outro Zé do Caroço
Pra falar de uma vez pra esse moço
Carnaval não é esse colosso
Nossa escola é raiz, é uma madeira

Mas é morro do Pau da Bandeira
De uma Vila Isabel verdadeira
E o Zé do Caroço trabalha
E o Zé do Caroço batalha
E que malha o preço da feira

E na hora que a televisão brasileira
Distrai toda a gente com sua novela
É que o Zé bota a boca no mundo
Ele faz um discurso profundo
Ele quer ver o bem da favela
Está nascendo um novo líder
No morro do Pau da Bandeira

Está nascendo um novo líder
No morro do Pau da Bandeira (tris)
Num serviço de alto-falante …

O serviço de alto-falante do Pau da Bandeira funcionou de 1970 a 1980 e é hoje uma rádio comunitária, mas não foram encontrados maiores dados sobre a situação atual. Há um documentário intitulado “A Voz do Pau da Bandeira” [1], feito em iPhone, que entrevistou dois filhos de Zé do Caroço e conta um pouco dessa história:

Abaixo, a versão original do samba “Zé do Caroço”, com Leci Brandão. Detalhe é que a imagem que o vídeo mostra é a capa do último disco que ela gravou pela Polydor (“Essa tal criatura”, figura 4), observe o selo no canto inferior direito das imagens abaixo:

 

Figura 4 – Capa do último disco de Leci Brandão pela Polydor, em 1980: "Essa tal criatura".

Figura 4 – Capa do último disco de Leci Brandão pela Polydor, em 1980: “Essa tal criatura”.

Leci explica como surgiu a música, em dois depoimentos. Para conhecê-la melhor, acesse as referências [5] e [6].

Referências

[1] Jaqueline Macoeh – Como surgiu o curta “A voz do Pau da Bandeira” – http://jaquelinemacoeh.blogspot.com.br/2016/02/jaqueline-macoeh-participar-do-curta.html

[2] Song Lyrics Generator – Automatically generate lyrics using keyboards of your choicehttps://www.song-lyrics-generator.org.uk/

[3] Tra-la-lyrics – Automatic generation of song lyrics on semantic domainhttps://www.degruyter.com/view/j/jagi.2015.6.issue-1/jagi-2015-0005/jagi-2015-0005.xml

[4] Cornell University Library – Evaluating creative language generation: The case of Rap Lyric Ghostwriting https://arxiv.org/abs/1612.03205

[5] Leci Brandão – Site oficial – https://www.lecibrandao.com.br

[6] Wikipedia – Leci Brandão – https://pt.wikipedia.org/wiki/Leci_Brand%C3%A3o

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