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TÉCNICA – Reparo de trilhas de circuito impresso

30 de outubro de 2012

Figura 1 – Aparência inicial da placa danificada.

Figura 1 – Aparência inicial da placa danificada.

Quem faz manutenção de equipamentos eletrônicos muitas vezes recebe aparelhos já mexidos, com danos graves nas trilhas das Placas de Circuito Impresso (PCI ou PCB – Printer Circuit Board), como mostra a figura 1. Além disso, alguns fabricantes também não cuidam da qualidade de seus produtos e qualquer ressoldagem é suficiente para descolar as trilhas. Outras vezes, o aparelho chega com a PCI trincada.

Pensando nestas dificuldades, exponho aqui uma técnica para reparo de trilhas de circuito impresso que tem por objetivo manter os componentes nos seus lugares originais, bem como permitir a manutenção futura.

Material necessário

Para realizar a contento o serviço, deve-se dispor de diversos fios de cobre rígido, de diâmetros diferentes (figura 2). As bitolas variadas são necessárias para casar o fio com a largura da trilha. É interessante escolher os fios mais duros, já que eles formarão a nova sustentação física dos componentes e/ou da placa. Também é necessário cuidar que estejam em bom estado, sem oxidação – devem soldar facilmente. Se não houver outro fio à mão, será necessário raspar e reestanhar a porção a utilizar.

Figura 2 – Bitolas de fios rígidos passíveis de utilização para conserto de PCI.

Figura 2 – Bitolas de fios rígidos passíveis de utilização para conserto de PCI.

Além dos fios, será necessário um estilete, uma agulha grossa e uma ferramenta criada especificamente para auxiliar neste trabalho: Para poder raspar o verniz das trilhas de circuito impresso, foi modificada uma faca serrilhada pequena, com cabo de madeira. A lâmina original foi encurtada bastante e o cabo foi desbastado. Isso foi feito para reduzir as possibilidades de acidentes, além de permitir aplicar mais força com segurança. Esta faca foi detalhada em post anterior.

Neste texto, é utilizado como exemplo uma placa de circuito impresso com várias trilhas danificadas (figura 1). As trilhas conectam um transistor com encapsulamento TO-220. Este encapsulamento é um tanto pesado (para as trilhas do circuito impresso) e geralmente fica em local que pode aquecer. Somente a ressoldagem não irá resolver o problema e poderão ocorrer novas falhas. Há, portanto, necessidade de reparar as trilhas.

A técnica

A técnica utilizada para este caso é simples, mas um pouco minuciosa. Para começar, é necessário cortar com um estilete os trechos descolados das trilhas de cobre (figuras 3 e 4). É sempre bom cortar um pouco além da parte solta, asssim ficará facilitada a raspagem e a soldagem. Se a trilha for muito pequena, melhor retirá-la totalmente.

 Figura 3 – Cortando os trechos de circuito impresso soltos.

Figura 3 – Cortando os trechos de circuito impresso soltos.

Figura 4 – Aparência da placa após o corte das partes soltas.

Figura 4 – Aparência da placa após o corte das partes soltas.

Figura 5 – Raspagem do verniz, para expor o cobre.

Figura 5 – Raspagem do verniz, para expor o cobre.

Figura 6 - Aspecto da placa raspada e limpa.

Figura 6 – Aspecto da placa raspada e limpa.

Figura 7 - Colocação dos fios, ancorados em uma extremidade e seguindo o trajeto da trilha original.

Figura 7 – Colocação dos fios, ancorados em uma extremidade e seguindo o trajeto da trilha original.

Depois de retirados os trechos soltos, raspar o verniz das trilhas que tem contato elétrico com a parte descolada (figuras 5 e 6). Deve-se raspá-las até uma boa distância da área danificada, pois irá apoiar mais firmemente os componentes e permitir a manutenção futura sem soltar os trechos reparados. Aproveite também para limpar as áreas adjacentes e poder visualizar melhor o local que está sendo trabalhado.

A faca da qual falamos acima é essencial para a raspagem do verniz, pois um estilete reto somente consegue fazer um risco na superfície. Esta ferramenta artesanal – que pode ter uma face cortante em ângulo escolhido pelo técnico -, raspa um trecho mais largo de cada vez. Além disso, o pequeno comprimento da lâmina permite o apoio da mão na placa, resultando em maior controle sobre a raspagem das trilhas. Para raspar confortavelmente, pode ser necessário utilizar um pano dobrado para apoiar a mão sobre a placa.

Após a raspagem e limpeza do local, escolhe-se o diâmetro mais adequado de fio rígido para refazer as trilhas e as ilhas de soldagem. O diâmetro não deve impedir que se possa fazer uma volta de fio ao redor do furo onde a trilha descolou. Como geralmente o aquecimento pode ter levantado outros furos adjacentes (como em nosso exemplo), deve ser possível contornar todos estes furos com fio, sem que eles formem curto-circuito entre si.

Agora, soldar uma ponta do fio rígido na parte raspada da trilha, no ponto mais afastado do trecho que foi cortado e removido (figura 7). Com um lado do fio ancorado solidamente na placa, pode-se então partir para os outros pontos, dobrando o fio no percurso da trilha original, sempre com o auxílio de uma agulha. Ela serve de ponto de apoio para as dobras. Nos furos, serve para contorná-los e deixar uma nova ilha de soldagem.

Se a trilha tiver um trajeto muito longo ou tortuoso pode-se, após ancorar o lado inicial, soldar rapidamente em pontos espaçados, geralmente nas curvas, de modo a fixar o caminho do fio. Ficará mais fácil dobrar o fio mais para frente, sem que seja desfeito o trabalho anterior. Depois, solda-se em toda a extensão da trilha, sem pressa para não amolecer a solda já feita.

Também poderá ser necessário manter a capa do fio, caso o reparo da trilha tenha grande extensão. Mesmo nestes casos é interessante percorrer o camiho original da trilha, fixando com cola quente em certos pontos, para manter o fio no lugar. Isto preservará boa parte da originalidade do aparelho e diminuirá a possibilidade de instabilidade no funcionamento.

O acabamento

Por último, pode-se passar um outro verniz na placa, para evitar oxidações futuras (figura 8). Tal “verniz” é muito fácil de fazer: utilize breu picado misturado com álcool isopropílico, quase meio a meio. Quanto mais breu, mais grossa fica a camada. O breu é excelente ajudante na solda, por isso não há problema colocar bastante na mistura – exceto por aumentar o tempo de secagem. Pode ser passado após a soldagem dos componentes, para deixar tudo protegido.

 Figura 8 – Placa consertada e envernizada com breu, pronta para colocação do componente.

Figura 8 – Placa consertada e envernizada com breu, pronta para colocação do componente.

Figura 9 – Frasco com verniz artesanal para circuito impresso.

Figura 9 – Frasco com verniz artesanal para circuito impresso.

O breu, também chamado de colofônia, é uma resina natural obtida a partir do pinus. Pode ser encontrado em casas de ferragem ou em lojas que vendem insumos para fazer ceras depilatórias. Ele vem em pedras cor âmbar facilmente quebráveis, derrete a 70 ºC e é muito barato. O álcool isopropílico pode ser encontrado em farmácias de manipulação ou lojas de eletrônica. Para guardar o verniz, utilizo um recipiente plástico, de boca larga e tampa de encaixe, sem rosca (figura 9). Ele tem um peso colado no fundo do frasco, pelo lado de fora. O peso pode ser feito com um bloco de restos de solda derretidos ou com algumas moedas velhas, coladas com fita crepe. É necessário para estabilizar o frasco – pois é muito leve e vaza muito fácil. Para aplicar, utilizar um pincel de 10 mm, de cerdas bem curtas, cortadas exclusivamente para esta tarefa.

Um alerta com relação ao verniz: não sei se o seu comportamento em RF é aceitável, pois tenho tenho pouca experiência nesta área. As montagens onde utilizei o verniz funcionaram muito bem, mas nenhuma trabalha além de 1 Mhz.

Sermãozinho

As técnicas mostradas aqui fazem parte de um conceito assimilado e reafirmado ao longo de vários anos, realizando serviços de manutenção: quando fizer alguma coisa, faça bem feito. É um tanto raro notar este comportamento pelo Brasil, principalmente naqueles que deveriam dar o exemplo. Parece não saberem que somente colheremos aquilo que plantarmos. Tudo o que nos acontece hoje é resultado do que fizemos e pensamos antes. Por isso, quem tem um retorno frequente dos aparelhos que conserta, certamente estará deixando de lado a qualidade naquilo que faz, esteja ou não consciente disso.

  1. Walter Vicentin
    2 de junho de 2015 às 02:40

    Parabéns muito bom, muito bem explicado!

  2. Alessandro Resende Quintas
    28 de setembro de 2014 às 15:38

    Parabéns,obrigado pelas dicas,sucesso!!

  3. Diogo
    30 de julho de 2014 às 17:26

    Muito bom!!!

  4. adrianoxx
    26 de junho de 2014 às 21:35

    vlw pelo post gostei bastante!!!

  5. 9 de julho de 2013 às 20:53

    Bom 🙂

  1. 8 de março de 2015 às 00:26
  2. 15 de janeiro de 2014 às 17:44
  3. 11 de janeiro de 2013 às 14:47
  4. 28 de novembro de 2012 às 17:56
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