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A chave do cofre

16 de abril de 2016 Deixe um comentário

Mafalda e o governo

Colocaram a culpa de tudo em um só partido, que é o único nascido das camadas mais pobres da população, que justamente por isto sempre defendeu e apoiou os mais fracos, contra as oligarquias. Um partido que não foi formado por conchavos de empresários.

Forjaram no Congresso um processo lotado de ilegalidades, com o único intento de apear do poder uma presidente eleita pela população. Porque mesmo “fazendo parte” do governo, os golpistas não tinham a chave do cofre.

E agora terão.

Se deixarmos.

A lista de apoiadores do impeachment é uma extensa folha corrida. Se eles já são beneficiários de esquemas de corrupção, porque fariam diferente num novo governo? http://www.redebrasilatual.com.br/blogs/blog-na-rede/2016/03/a-inacreditavel-ficha-corrida-do-impeachment-1383.html

E estão tão assanhados que, se não for através do impeachment, já têm na manga outras opções para tomar o poder: eleições gerais ainda neste ano; implantação do parlamentarismo; redução dos poderes da presidência; intervenção do STF, cassando a presidente e o vice.

palavras-charge

Nesta longa campanha difamatória, cegaram a tal ponto boa parte da população brasileira, que o real perigo está passando em brancas nuvens.

Por exemplo, a possibilidade de um réu da Lava-Jato, com processo correndo no STF (por unanimidade), dentre vários outros, poder vir a exercer o cargo de vice ou até de presidente do Brasil! Um cara que entrou na política, apadrinhado por PC Farias. E cuja trajetória política é acompanhada de uma série de denúncias de irregularidades, até falsificação de documentos. Denúncias recentes o ligam a desvios de mais de 50 milhões de reais. E falam em COMBATE À CORRUPÇÃO?

Assim que esta “tchurma” tomar o poder, saberemos o que é que estavam armando contra o povo.

Várias ações serão lançadas a partir do novo “governo”, provavelmente durante as Olimpíadas 2016 ou até imediatamente, aproveitando a euforia inicial (que cega e distrai também).  Dentre uma imensidade de maldades que estão por vir, trago algumas:

A operação Lava-Jato será encerrada rapidamente, para evitar desdobramentos maiores, pois já está atingindo os oligarcas e boa parte dos apoiadores do golpe. Será punido apenas o partido da presidente e algumas pessoas para servir de exemplo, daí fecharão a porteira. Vale lembrar que a lei anti-corrupção foi proposta pelo partido da presidente e que nas listas de Furnas, Odebrecht e Panamá-papers, não aparece nenhum beneficiário do partido da presidente.

– Perdão de dívidas de impostos para empresas. O famoso REFIS estará de volta. É uma das razões da queda da arrecadação federal, pois parte dos empresários, apostando na queda do governo, não pagam mais seus impostos, de olho no benefício do perdão. Grandes empresários do estado mais rico do país, junto com a grande mídia, todos envolvidos em sonegação, comandam estas ações.

– Elevação dos juros bancários (que já são os mais altos do mundo). Isto fará sumir o dinheiro de nossos bolsos e beneficiará aqueles que podem aplicar no mercado financeiro. Ou seja, CARESTIA para a maioria da população e alta renda para quem só aplica seu dinheiro em bancos, nunca na produção. E crescimento da dívida externa, obrigando o Brasil a voltar de joelhos para o FMI.

– Redução do poder de compra dos salários, colocando a culpa, obviamente, no governo anterior. Quebrarão a CLT e o desemprego voltará a aumentar, para possibilitar esta redução de salários.

– O Bolsa Família, o Pronatec, o Prouni, o Brasil Sorridente, o Minha Casa, Minha Vida, tantos programas de ascensão social dos mais pobres, serão cuidadosamente desligados, um após o outro.

– Devido ao aumento dos juros, as mensalidades das prestações da casa própria subirão demais, o que causará uma onda de execuções hipotecárias. O FIES ficará impagável.

– As reparações da tragédia de Mariana ficarão definitivamente no papel.

– As operações da Polícia Federal e da Receita Federal terão seu alcance drasticamente reduzido, limitando-se a pequenos delitos.

– Seguindo o mesmo caminho, as atuações do Judiciário e do Ministério Público sofrerão limitações importantes.

– E os protestos serão abafados a ferro e fogo.

– Usando como desculpa a crise, dirão que será necessário vender empresas como Petrobrás, BB e Eletrobrás, para fazer caixa. E entregarão o Pré-Sal de bandeja. E começará uma era de desastres ambientais.

– A concentração de renda dobrará em poucos anos.

– E isto será só o começo.

Porque tudo isso, nada mais é do que a volta ao poder da velha e conhecida oligarquia, aquela dos escravocratas, grandes proprietários de terras e da parte podre do empresariado, todos sempre ávidos por dinheiro. Que não conseguem ficar muito tempo longe do poder. Antinacionais, preconceituosos, exploradores e muito, muito menos, nem é bom falar.

Para eles, não importa que o país vá à bancarrota, desde que estejam com as malas cheias de dinheiro e que voltem a viajar tranquilos e sossegados nos aviões, sem os incômodos e barulhentos brasileiros da classe média.

Se deixarmos.

Mafalda e a democracia representativa

Anencefalia - Política

Ditadura / Democracia

15 de agosto de 2015 8 comentários

Millôr Definitivo - A Bíblia do Caos

A diferença entre uma democracia e um país totalitário é que numa democracia todo mundo reclama, ninguém vive satisfeito. Mas se você perguntar a qualquer cidadão de uma ditadura o que acha do seu país, ele responde sem hesitação: “Não posso me queixar”.

Millôr Fernandes, Millôr definitivo: a bíblia do caos.

Millôr faria 91 anos em 16 de agosto de 2015. Outra frase dele, sobre o mesmo assunto, é mais conhecida:

Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim.

                                                                              Millôr Fernandes

Millôr Fernandes

E para quem quer compreender o que realmente está acontecendo em nosso país (estamos cavando nossa própria cova), trago um pequeno artigo de Carlos Castilho, publicado em 01/08/2015  no Observatório da Imprensa (ver link ao final do texto), que ajuda a entender as posições extremadas que tem aparecido por todo lugar:

Os riscos ocultos na uniformização da agenda da imprensa

Carlos Castilho

De todos os pecados atuais cometidos pela indústria da comunicação jornalística, o que tem consequências mais graves é o da uniformização da agenda de informações. O fato de noticiar dados novos, fatos inéditos e eventos a partir de um único viés não falseia apenas a visão que as pessoas têm da realidade, mas as leva a desenvolver opiniões cada vez mais radicais e extremadas.

Até agora a maioria dos críticos da mídia concentravam suas atenções basicamente na verificação da autenticidade das notícias publicadas por jornais, revistas, telejornais e páginas noticiosas na Web. Trata-se de uma preocupação muito importante, mas agora ela está sendo ofuscada pelas consequências práticas do crescente sectarismo nas opiniões e posicionamentos expressados por leitores, ouvintes, telespectadores e internautas.

Há uma diferença importante entre estar equivocado em consequência de informações falsas e a xenofobia política alimentada por notícias unilaterais, que mostram apenas um lado da realidade. Uma noticia pode ser verdadeira, mas gerar uma percepção parcial ou distorcida do contexto onde estamos situados. É aí que está a origem das opiniões sectárias. É a materialização clara da famosa história do copo meio cheio ou meio vazio. O fato é o mesmo, mas a forma como é representado na comunicação gera duas atitudes diferentes em quem recebe a informação.

O discurso da imprensa é o de que ela sempre ouve os dois lados. Só que hoje existem muito mais do que dois lados numa mesma situação ou na interpretação de um dado. Além disso existem distorções na prática de ouvir os dois lados. A percepção ou opinião predominantes são publicadas com detalhes enquanto as do lado contrário, se limitam a esclarecimentos burocráticos, como tornou-se praxe na cobertura do escândalo Lava Jato. Formalmente foram ouvidos os dois lados só que o impacto gerado no público reforça a percepção de um lado apenas. É evidente a distância entre o discurso e a realidade.

Há centenas de pesquisas acadêmicas mostrando que quando pessoas recebem o mesmo tipo de informação, elas tendem a desenvolver posicionamentos e opiniões mais radicais do que aquelas expressadas anteriormente, como mostra o pesquisador norte-americano Cass Sunstein, no seu livro Going to Extremes. Este é um mecanismo já bastante estudado e que se baseia no fato de que as pessoas tendem a resistir a opiniões contrárias às suas por que isto as obriga a um esforço extra de reflexão e checagem. Dá mais trabalho do que sentir-se confortável porque pensa ou age igual a seus parceiros, amigos ou colegas.

Daí o fato das pessoas buscarem grupos com ideias e percepções afins. Esta tendência se tornou muito mais forte atualmente quando a internet criou mega grupos, as redes sociais virtuais onde é muito mais fácil encontrar parceiros para ideias, até as mais estapafúrdias e radicais.

A imprensa , obviamente, não pode sintetizar toda a diversidade e complexidade do mundo atual. O seu poder de representar a realidade que nos cerca será sempre limitado, mas o que ela deve e pode fazer é mostrar a seus leitores, ouvintes, telespectadores e internautas que o mundo é muito mais complicado e diverso do que as noticias publicadas ou transmitidas. Nestas circunstâncias, o jornalista não pode e não deve assumir ares de dono da verdade. O grande diferencial do jornalista não está na quantidade de informações que ele detém, mas na capacidade de verificar a confiabilidade, pertinência, exatidão e atualidade dos fatos, dados e eventos que chegam ao seu conhecimento.

O papel da imprensa na era digital não é mais o de fornecedor exclusivo dos dados e fatos que servem de base para a nossa tomada de decisões. Sua função é cada vez mais a de ajudar as pessoas a contextualizar o material informativo que recebem das mais variadas fontes. E é ai que a nossa imprensa falha gritantemente ao nos fornecer uma visão unilateral e uniforme do mundo que nos cerca. As redações, por força das pressões externas e da concorrência entre veículos, tendem a criar ambientes informativos pouco sensíveis a opiniões e percepções divergentes às da maioria dos seus integrantes, o que alimenta abordagens distorcidas.

A capacidade de contextualizar é que diferencia o jornalista de um mero robô ou algoritmo usado por sites de informação. E é ela que está sendo negligenciada , gerando o fenômeno da homogeneização das notícias, a origem da formação de segmentos cada vez mais radicalizados e polarizados na opinião publica. Quando a imprensa evita dar informações que possam contrariar a agenda predominante, ela desestimula aqueles que dispõem de dados e fatos discrepantes, principalmente quando estas pessoas pertencem às classes C e D. O medo de ir contra os poderosos reforça a unanimidade e com isto gera situações como o hoje incompreensível apoio da população alemã à xenofobia racial preconizada por Adolf Hitler. Ajuda a entender também as omissões da imprensa norte-americana no caso das armas de destruição em massa de Saddam Hussein e que justificaram a primeira invasão do Iraque, tida por muitos como a origem ideológica do Estado Islâmico.

Artigo extraído do Observatório da Imprensa, acesse o link para ver os comentários no lugar original http://observatoriodaimprensa.com.br/imprensa-em-questao/os-riscos-ocultos-na-uniformizacao-da-agenda-da-imprensa/