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Meu querido Ligustro


Figura 1 - Meu querido ligustro, em plena floração.

Figura 1 – Meu querido ligustro, em plena floração.

ou: Compreenda melhor as árvores

Fazia quinze anos que estávamos juntos, mas tive que matá-lo, antes que arrebentasse e mofasse toda a calçada (figura 1).

Não ganhei na loteria, nem tenho salário exuberante, para comprar mais terra e poder plantá-lo solto, para que pudesse mostrar todo o seu esplendor. A vida corre e nosso fôlego já não é o mesmo para juntar dinheiro.

Este artigo mostra a técnica para remover totalmente uma árvore da calçada, a maneira como elas funcionam e como realmente são as raízes das árvores.

Uma observação: o conhecimento que aqui exponho sobre as plantas é decorrente de estudos e observações ao longo de vários anos e em razão disso, poderão existir pequenos erros de avaliação, que não invalidam o objetivo principal: falar das árvores. Por evitar os termos técnicos que tanto assustam os leigos, poderão faltar detalhes, que este artigo não pretende abordar ou esmiuçar.

Num país continental como o Brasil, se a terra fosse igualmente dividida, cada um de nós poderia ocupar uma área de 4 hectares, aproximadamente. Imagine um terreno de 200 x 200 m, ou 4 quadras de 100 x 100 metros, mais um tantinho de água (0,5 %). São 40 mil metros quadrados por pessoa.

Alguns conseguem, quanto muito, um lote de 360 m2. Ou um apertado apartamento. Ou pior ainda, uma peça com 10 metros quadrados, feita de pedaços de tapume e plásticos, que é sala, quarto e cozinha, onde todos dormem amontoados, sob o constante risco de expulsão. É o drama brasileiro. Mas, estou a falar de árvores.

Fig. 2 - Ingazeiro com a copa dividida ao meio, por causa dos fios de eletricidade e comunicações, que poderiam estar debaixo da terra. Foto tirada em Porto Alegre/RS, em 2015.

Fig. 2 – Ingazeiro com a copa dividida ao meio, por causa dos fios de eletricidade e comunicações, que poderiam estar debaixo da terra. Foto tirada em Porto Alegre/RS, em 2015.

Fig. 3 - Tipuana dividida ao meio, devido aos fios de alta-tensão, foto tirada em Santa Cruz do Sul/RS, em 2018.

Fig. 3 – Tipuana dividida ao meio, devido aos fios de alta-tensão, foto tirada em Santa Cruz do Sul/RS, em 2018.

As árvores não tem mais espaço nas cidades, em razão da indecente valorização dos imóveis. Simplesmente não há lugar para que elas cresçam até o tamanho ideal. Ou atrapalham os fios dos postes, ou arrebentam calçadas, ou fazem muita sombra, ou muita sujeira, ou ficam muito grandes (figs. 2 e 3).

Chamar frutos, flores, cascas e folhas de sujeira chega a ser uma heresia, pois é a decomposição de qualquer matéria orgânica que viabiliza a vida no planeta. Querem que as árvores adaptem-se às cidades, não o contrário…

Fig. 4 – Árvores com cortes expostos.

Fig. 4 – Árvores com cortes expostos.

Fig. 5 – Mais árvores com cortes expostos.

Fig. 5 – Mais árvores com cortes expostos.

Por isso as mutilam tanto. Comprove você mesmo, caminhe um pouco e observe atentamente o estado delas, nas calçadas e mesmo nas praças (figs. 4 e 5). Se a cada árvore fosse dada a possibilidade de crescer como quisesse, para que mostrasse todo o seu vigor e majestade, teríamos cidades mais agradáveis, verdes, frescas, cheias de cores, bichos e aromas. Todos sentiríamos como a vida pode ser aprazível, bela, vigorosa e calma ao mesmo tempo.

Como acontecia quando meu ligustro florescia, no final de novembro ou início de dezembro e exalava um suave perfume que, ao ser inalado, trazia uma agradável sensação de frescor, mesmo nos dias mais quentes. O ligustro, assim como muitas outras árvores, tem essa capacidade de fazer com que sua fragrância dispare junto um desejo de leveza e alívio da temperatura, parece até que tira nosso suor.

Agora acabou.

A retirada do ligustro

Tive de removê-lo, a calçada estava desnivelando e trincando e as podas não conseguiam controlá-lo, na sua ânsia de crescimento. O tronco estava cada vez mais grosso, tinha 30 cm de diâmetro junto às raízes.

Fig. 6 - Troncos cortados rente ao chão, aguardando o apodrecimento, para um eventual plantio de outra muda.

Fig. 6 – Troncos cortados rente ao chão, aguardando o apodrecimento, para um eventual plantio de outra muda.

Não gosto dos tocos cortados rentes ao chão, deixados para morrer à míngua (fig. 6). Dificultam a reutilização da cova, pois levam muito tempo para apodrecer. Ainda mais que o ligustro é uma espécie extremamente lutadora. Se eu deixasse alguma possibilidade, ele brotaria novamente, ficaria anos teimando. Não tenho como plantá-lo em outro local, o espaço disponível é pequeno, por isso foi preciso removê-lo totalmente.

Para isso, poderia usar algo como a “pá de árvore” (tree spade), um mecanismo hidráulico impressionante, que escava a raiz de árvores adultas, removendo-as com o torrão inteiro (mais detalhes na seção sobre o transplante de árvores). Contudo, não conheço empresa que tenha algo semelhante na região, só vi que a prefeitura de Curitiba/PR tem uma dessas, desde 1994 [1].

Ou, quem sabe, estraçalhar a raiz do ligustro, com o Rotor S, da John Deere, montado num trator. Do mesmo modo que a máquina anterior, nunca o vi por essas bandas, ele consegue roer, esmerilhar um tronco em apenas 2 minutos, adentrando meio metro no solo. Ocupa menos espaço que o equipamento anterior, só não sei se lida bem com as pedras:

Há outra técnica, ambientalmente horrível, que é cortar a planta rente ao chão e fazer buracos no toco, para depois encher com querosene e tacar fogo. Leva uns 3 dias queimando. Fazer isso é uma temeridade, ainda mais que seria necessário deixar as chamas sem supervisão, para poder comer e dormir. A querosene também impediria por algum tempo de vingar qualquer outra planta naquela cova.

No final das contas, a árvore nem é tão grande assim, é mais correto e saudável fazer um pouco de esforço físico…

Pedi perdão ao ligustro e comecei a limpar o solo. Retirei a grama ao redor, para enxergar as raízes (figs. 7 a 9).

Fig. 7 - Ligustro antes da remoção, com a grama.

Fig. 7 – Ligustro antes da remoção, com a grama.

Fig. 8 - As primeiras raízes do ligustro aparecendo.

Fig. 8 – As primeiras raízes do ligustro aparecendo.

Fig. 9 - Raízes removidas até a chuva impedir os trabalhos.

Fig. 9 – Raízes removidas até a chuva impedir os trabalhos.

O Valdevino e o Eliézer chegaram para ajudar e formaram comigo a equipe de remoção. Era uma manhã de sábado, tinha começado com sol, até achei que esquentaria. O dia ficou nublado e fresco e facilitou o trabalho.

Mas, a cada vez que a agressão aumentava, o céu escurecia. Quando a motosserra pegou os galhos mais altos, começou a chover (fig. 10). Parecia que era o ligustro que chorava.

Fig. 10 - Motosserra pegando e a chuva batendo.

Fig. 10 – Motosserra pegando e a chuva batendo.

Não conseguimos terminar o serviço naquele sábado, inclusive arrebentou várias vezes a cordinha de sisal, ancorada na caminhonete.

No domingo, continuei sozinho o serviço. Amanheceu um dia lindo, com sol, sem nuvens. Como se fosse o último dia de sol para meu ligustro. Retirei o barro que ficara do dia anterior e removi mais algumas raízes (figs. 11 e 12). Mas ele continuou rijo e firme.

Nem te ligo – sussurrou.

Na época em que o plantei, foram deixadas muitas pedras grandes na cova. Isso dificultou a remoção, pois as raízes, apesar de relativamente finas, cresceram entremeadas às rochas. Como abriram alguns calos nas mãos, foi melhor parar e continuar outro dia.

Fig. 11 - Situação da cova após a chuva, no domingo.

Fig. 11 – Situação da cova após a chuva, no domingo.

Fig. 12 - Mais raízes retiradas, no domingo.

Fig. 12 – Mais raízes retiradas, no domingo.

Passou uma, duas semanas e ele lá, só com um toquinho de folhas e boa parte das raízes à mostra. Manteve-se impassível. No segundo sábado, era lua minguante voltamos para terminar o serviço. Mais um dia nublado, desta vez não choveu.

Removemos mais pedras e raízes. A cada batida da cavadeira, o chão tremia. Em dado momento, o ligustro balançou.

Amarramos na caminhonete uma corda nova, mais grossa, puxamos e ele cedeu. Retiramos mais algumas pedras, cortamos outro tanto de raízes e o derrubamos (fig. 13).

Fig. 13 - Ligustro derrubado.

Fig. 13 – Ligustro derrubado.

Fig. 14 - Corte do tronco do ligustro, com motosserra.

Fig. 14 – Corte do tronco do ligustro, com motosserra.

Fig. 15 - Cova aberta, com o tronco retirado.

Fig. 15 – Cova aberta, com o tronco retirado.

Fig. 16 - Toco das raízes, muito pesado.

Fig. 16 – Toco das raízes, muito pesado.

A motosserra, com aquele barulho infernal, transformou o forte tronco em tocos, que depois serão lascados para fazer lenha (figs. 14 a 16). Se pudesse, teria mandado a uma serraria para fazer tábuas, pois a madeira é clara e dura, muito bonita. Ou teria utilizado o Tira Tábua, mas ninguém tinha um por perto.

O bolo das raízes do ligustro era tão pesado que em três, mal conseguimos levantar. Ao recolher os tocos espalhados pelo chão, encontrei entre os ramos um pequeno ninho, já abandonado. Foi preciso remover a árvore antes do inverno, porque os pássaros fazem novos ninhos lá pelo início da primavera.

Para finalizar, a terra foi recolocada no buraco, até pensei que sobraria alguma coisa, mas sem as raízes e as pedras, ainda faltaram uns 10 cm para chegar no nível da calçada (fig. 17).

Fig. 17 - Terra recolocada na cova.

Fig. 17 – Terra recolocada na cova.

Na próxima árvore que plantarei, a superfície será rebaixada ainda mais, pois as raízes só crescem dentro da terra e essa será uma forma de diminuir os problemas com a calçada.

Acabou para o Ligustro lucidum de 15 anos. Não pude deixar que vivesse como deveria. Compensarei a saída dele com o plantio de uma árvore frutífera, nativa desta vez.

Aliás, esse era um costume frequente no sul do Brasil, até o começo da década de 1980: plantar árvores frutíferas nas calçadas. Assim, algum passante (homem ou bicho) que estivesse com fome poderia dar uma tapeada e de quebra, ingerir vitaminas importantes para sua saúde. Hoje em dia, quase não se vê mais frutíferas nas ruas. E em muitas calçadas, nem árvores há (fig. 18).

Fig. 18 - Em dias de verão, com o sol bem forte, em qual dessas calçadas você prefere andar?

Fig. 18 – Em dias de verão, com o sol bem forte, em qual dessas calçadas você prefere andar?

Sem falar que as construções nas cidades são feitas tão apinhadas que não reservam mais espaço para árvores nas calçadas, só para vagas de garagem. É o tal do progresso, dizem…

Apesar disso, há algumas iniciativas, como o pessoal do Fruto Urbano [2], que promove eventos de plantio de árvores frutíferas nas cidades. Eles começaram em Bauru/SP e pretendem expandir a atividade para todo o país. Seria bom ver esse hábito, de plantar frutíferas, propagar-se novamente por aí.

Agradecimentos

O Valdevino e o Eliézer ajudaram muito nesta empreitada (fig. 19). Ficaram assustados com o tamanho da árvore, mas não fugiram da raia. Encararam o desafio e derrubaram muitas gotas de suor. Foram indispensáveis, eu jamais conseguiria sozinho, mesmo tendo várias ferramentas, que facilitaram o trabalho. Há tarefas que só podemos levar a cabo em equipe.

Fig. 19 - Valdevino e Eliézer, os que fizeram força...

Fig. 19 – Valdevino e Eliézer, os que fizeram força…

Porque eu tive um ligustro

Lembro de dois ligustros, em frente ao salão paroquial de minha cidade natal. Eu era criança, havia ganhado um canivete e vivia com ele. A casca daquelas duas árvores novas era bem macia, comecei fazer cortes ao redor, mais ou menos na altura do peito (de uma criança de 8 anos, obviamente). Os amigos com quem eu brincava falaram que não era para fazer aquilo, podia estragar as árvores. Não dei bola. Algum senhor passou por ali e também reclamou, novamente não dei atenção. Removi a casca, fazendo um anel de uns dois centímetros em cada tronco.

Chegou aos ouvidos de meu pai a reclamação e tomei sermão, mas achei que não dava nada, afinal aquelas árvores eram jovens, fortes e bonitas.

Morreram. O que eu tinha feito, sem saber, era o anel de Malpighi, ou anelamento. Este procedimento é uma referência ao médico, anatomista e biólogo italiano Marcello Malpighi (1628-1694), considerado o pai da anatomia microscópica, da histologia, fisiologia e embriologia. O anel de Malpighi é uma técnica para asfixiar a árvore, de modo que a seiva bruta sobe até as folhas, mas a seiva elaborada é impedida de descer com os açúcares para as raízes, levando o vegetal ao colapso, por falta de nutrientes. É um procedimento radical, mas necessário em alguns casos, como na árvore que brota em local de difícil acesso e que já tenha um tamanho que a impeça de ser arrancada. Para o sucesso da empreitada, é necessário remover os brotos que porventura aparecerem entre o anel e as raízes (fig. 20).

Fig. 20 - Execução prática do Anel de Malpighi, em oito meses de evolução da planta.

Fig. 20 – Execução prática do Anel de Malpighi, em oito meses de evolução da planta. Clique para ampliar.

Cortar uma árvore jovem até o nível do chão dificilmente a mata, pois ela continuará gerando novos brotos, já que a raiz está intacta e vigorosa. Para esses casos, o anel de Malpighi é uma solução drástica, mas eficaz.

O ligustro que tive até agora em frente de casa foi uma forma de compensar aquela barbaridade da infância. E também de lembrar a agradável, delicada e refrescante fragrância que eles exalam no início do verão.

O FUNCIONAMENTO DAS ÁRVORES

As árvores funcionam de jeito simples, se não entrarmos em muitos detalhes. Aliás, todos os assuntos complicados são feitos de várias e pequenas coisas, fáceis de compreender. É o conhecimento das partes que leva ao todo…

O conhecimento das coisas também derruba MITOS, como aquele de que as raízes são o reflexo da copa das árvores. As raízes são bem mais rasas (e frágeis, extensas e intrincadas) do que se imagina.

No exterior, desde meados dos anos 1980 tenta-se desmistificar o sistema radicular das árvores, mesmo lá fora é difícil mudar um conceito tão arraigado. Vide a internet, onde ideias errôneas ou absurdas, com argumentos fraquíssimos e risíveis, sempre encontram seguidores.

As raízes são o espelho da copa? NÃO MESMO!!

Opiniões erradas, vindas muitas vezes de simples deduções ou de má-fé, sem serem comprovadas, espalham-se facilmente porque poucos se dão ao trabalho de confirmar a sua veracidade. É exatamente o caso da relação entre as raízes e a copa das árvores, que a opinião geral tem como uma o reflexo da outra (fig. 21).

Fig. 21 - À esquerda, forma tradicionalmente aceita (E INCORRETA!) da distribuição das raízes e à direita, o verdadeiro sistema radicular das árvores, muito mais espalhado e frágil do que se crê.

Fig. 21 – À esquerda, forma tradicionalmente aceita (E INCORRETA!) da distribuição das raízes e à direita, o verdadeiro sistema radicular das árvores, muito mais espalhado e frágil do que se crê.

As raízes são como a “boca” da árvore. Elas absorvem água, oxigênio e nutrientes do solo, servem como estoque de carboidratos e formam um sistema estrutural que suporta o tronco e a copa.

Ao contrário da crença geral, as raízes são bastante rasas, geralmente tem no máximo 2 ou 3 metros de profundidade junto ao tronco, e possuem grande extensão, muito além da linha de gotejamento (área debaixo da copa, onde as gotas de chuva caem suavemente). Inclusive, nas matas fechadas, as folhas das árvores formam uma copa contínua (um dossel), reforçado pelos cipós, que impede a chuva de cair forte e de lavar o solo.

Do mesmo modo, as raízes de todas as plantas ficam entremeadas sob as folhas caídas e ajudam a manter a umidade, o que melhora significativamente as condições de sobrevivência nos períodos secos e a resistência contra a erosão.

Mais de 90% das raízes estão nos primeiros 20 ou 30 cm de solo. As raízes mais grossas, junto do tronco, não costumam representar mais do que 5 a 10% do sistema radicular completo (considerando árvores estabilizadas, com vários anos no terreno).

Podemos confirmar que as raízes são rasas ao observarmos as árvores derrubadas nos desmatamentos por correntão (mais adiante tem um vídeo sobre isso) ou nos temporais, ou aquelas com as raízes expostas nas bordas dos barrancos (figs. 22 a 24). Nesses casos, as raízes sempre se mostram pouco profundas, não necessariamente devido a doenças, mas porque são assim mesmo. Quem já cavou a terra, certamente encontrou raízes finas e superficiais, sem origem definida. Se olhasse ao redor, certamente veria alguma árvore a dezenas de metros.

Fig. 22 - 4 árvores tombadas por temporais, que mostram a pequena profundidade das raízes.

Fig. 22 – 4 árvores tombadas por temporais, que mostram a pequena profundidade das raízes.

Fig. 23 - Terreno escavado, onde é possível observar a estreita camada de raízes, junto da superfície.

Fig. 23 – Terreno escavado, onde é possível observar a estreita camada de raízes, junto da superfície.

Fig. 24 – Terreno erodido, onde ficam visíveis as (finas) raízes das árvores, sempre superficiais. Fonte: The Tree Center [3].

Fig. 24 – Terreno erodido, onde ficam visíveis as (finas) raízes das árvores, sempre superficiais. Fonte: The Tree Center [3].

Devido às diversas condições de solo e aos obstáculos porventura existentes, a distribuição das raízes é imprevisível (respeitando o que já foi dito acima). Se aparece uma barreira, ela é contornada e a raiz segue na mesma direção de antes. A barreira pode ser, por exemplo, um solo muito compactado.

As raízes são oportunistas, só aparecem em locais que dão condições de crescimento e isso ocorre perto da superfície, onde o solo é mais solto e água, oxigênio e nutrientes estão mais facilmente disponíveis, devido à intensa atividade da microvida ali existente.

O húmus, repleto de fungos, bactérias e pequenos animais, é que disponibiliza esses nutrientes, vindos da decomposição de todo o material orgânico caído ao chão (folhas, frutos, ramos, restos de animais, estercos, etc.), associados aos minerais existentes no solo. Quando há umidade e arejamento suficientes, as raízes superficiais interagem intensamente com a camada de húmus, que tem, em média, até 20 cm de profundidade.

Logo abaixo do tronco e ao seu redor, estão as raízes mais fortes, que fazem o ancoramento da árvore com o solo. São as raízes laterais, que espalham-se obliquamente a partir do tronco, bastante grossas junto dele e que afinam rapidamente, até uma distância de 2 ou 3 metros.

Determinadas espécies também possuem raiz pivotante (ou principal), que desce verticalmente, mas mesmo essa tem pequeno diâmetro após 3 metros. E a raiz principal é dominante apenas nos primeiros anos de vida da árvore.

As raízes laterais e a pivotante formam a área de sustentação da árvore, dentro desses 3 metros, em média. É justamente esse tufo de raízes de apoio que aparece quando a árvore cai em temporais, ou quando é derrubada por tratores, nos desmatamentos.

Após a região de sustentação, as raízes ficam finas, com diâmetro médio de 1 a 2 cm, não lenhosas (mais frágeis), de onde saem outras raízes, mais finas ainda, que formam uma rede superficial, junto do material em decomposição. São as raízes alimentadoras superficiais, responsáveis pela maior parte da água, oxigênio e nutrientes levados à árvore e por isso, extremamente importantes. Quanto mais finas as raízes, maior é a área de absorção de água por osmose (passagem de líquidos por uma membrana).

Outra parte das raízes alimentadoras desce verticalmente das raízes laterais, a pouca profundidade (até 30 cm), em busca de umidade. São as raízes alimentadoras descendentes (sinkers).

As raízes alimentadoras formam uma extensa rede, que se espalha como um disco ao redor da árvore, podendo alcançar distâncias maiores que 3 vezes a altura da copa. As raízes mais distantes do tronco tendem a ser mais finas e superficiais. A maior parte das raízes alimentadoras, portanto, fica além da linha de gotejamento. Por isso, quando quiser regar corretamente uma árvore já estabelecida, regue o seu entorno e evite o tronco.

Debaixo da copa (dentro da linha de gotejamento) fica a zona crítica de raízes, essencial para a saúde da planta. Nos casos de transplante ou obras de construção, esta área deve ser preservada tanto quanto possível, para evitar doenças ou até a morte da árvore.

Independente da espécie, todas as árvores podem desenvolver raízes profundas (2 a 3 m, geralmente), basta o solo ajudar. A dificuldade de encontrar várias e grossas raízes, para além da área de sustentação da árvore, é devida ao solo, que fica mais compactado e menos aerado (inóspito para a vida), com o aumento da profundidade. Mesmo as árvores altas não têm raízes muito profundas.

Algumas plantas são mais tolerantes à compactação e à má aeração, essa propensão é que faz com que as raízes de umas árvores sejam mais profundas que outras, sob as mesmas condições. Os solos pobres, combinados com a falta dessa tolerância, mais o engrossamento natural ao longo dos anos, é que fazem algumas espécies exibirem mais facilmente suas raízes acima do solo.

Eventuais rachaduras na terra, resultantes de períodos de seca, por exemplo, facilitam o crescimento de longas e finas raízes, em busca de água. Solos excepcionalmente bem arejados, rochas, canos, manilhas, paredes de construções antigas e abandonadas, quando fissurados também possibilitam às raízes crescerem dezenas de metros. Por outro lado, solos encharcados limitam a profundidade delas a 10 ou 20 cm, podendo inclusive matá-las, se ficarem muito tempo nessas condições.

Em razão disso, é incorreto dizer que as árvores buscam água principalmente do lençol freático, pois as raízes não toleram umidade sem aeração. Podem haver finas raízes logo acima dessas regiões úmidas, mas nunca dentro do lençol.

As árvores de manguezais, por sua vez, conseguem tolerar bem a água porque suas raízes têm órgãos especiais para absorver o ar: os pneumatóforos.

A maior parte da água que sustenta as árvores provém da superfície, através das chuvas e do orvalho matinal. Aliado a isso, se a mata está preservada, a terra funciona como uma grande esponja, que nas épocas secas entrega devagar a água, absorvida durante os dias chuvosos.

Por isso que alguns terrenos são propensos à desertificação, quando eliminamos as árvores.

Na floresta, existe mais ajuda mútua do que competição. Os cipós, por exemplo, apoiam-se nas árvores para buscar o sol, mas poucos deles são parasitas. Eles aumentam a cobertura vegetal, que quanto mais densa, mais mantém a umidade do solo, o que é bom para todas as plantas. Além disso, um maciço de árvores é mais eficaz contra as tempestades, pois atua como barreira contra os ventos fortes.

Fig. 25 – Noite de raios em 30 de agosto de 2014, em Santa Cruz do Sul/RS.

Fig. 25 – Noite de raios em 30 de agosto de 2014, em Santa Cruz do Sul/RS.

Os raios e as árvores

Sabe-se que, devido ao efeito das pontas – nas quais o acúmulo das cargas elétricas é maior, facilitando a transferência de energia -, qualquer coisa mais alta que o restante do terreno será o alvo de raios, seja árvore, poste, pessoa, antena, edifício, carro, morro, torre, linha de transmissão, etc.. Objetos mais úmidos e/ou melhores condutores de eletricidade, ajudam a definir onde cairá a descarga, pois os raios sempre seguem o caminho mais fácil, ou mais ionizável. Os raios podem cair centenas de vezes no mesmo local, vide o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro/RJ.

Assim, o alvo será o que estiver mais próximo das nuvens carregadas e o melhor condutor elétrico, desde que o caminho até ele seja em curvas muito suaves ou em linha reta (raios não fazem curvas fechadas – ver fig. 25). Por isso, os raios podem seguir caminhos aparentemente aleatórios, especialmente dentro das construções.

Pessoas, animais e plantas, por conterem muita água diluída em sais, são ótimos condutores de eletricidade e os raios podem fluir facilmente nesses corpos.

O Brasil é o país com maior incidência de tempestades do mundo, são mais de 77 milhões de raios que caem aqui, todos os anos! E as mortes por raios são mais comuns do que se imagina (fig. 26). Animais em campos de pastagem também são vítimas frequentes.

Em razão disso, é importante conhecer as formas de resguardo. O ELAT – Grupo de Eletricidade Atmosférica [4], rebento do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e que estuda os raios no Brasil, publicou uma pequena cartilha sobre proteção contra raios, baixe ela DAQUI. A página inicial deles tem um mapa dos raios no Brasil, em tempo real.

Fig. 26 – Infográfico sobre os raios no Brasi. Fonte: ELAT – INPE – Vítimas de Raios [4].

Fig. 26 – Infográfico sobre os raios no Brasi. Fonte: ELAT – INPE – Vítimas de Raios [4].

Durante os períodos de raios e trovões, é perigoso estar na rua ou em campo aberto, bem como abrigar-se debaixo de árvores, toldos ou varandas, ou ficar perto de grandes estruturas metálicas. Os melhores lugares são dentro dos veículos e das casas, longe das paredes.

Não se atende o telefone fixo nestes momentos, pois a pessoa pode ser eletrocutada através de um raio vindo e espalhado pela linha telefônica.

A rede elétrica também é alvo de raios e as áreas rurais, as casas isoladas ou em morros estão muito mais sujeitas a eles. Nesses locais, é melhor desconectar os aparelhos que precisam de antena ou da rede elétrica para funcionar. Qualquer aparelho ligado à tomada poderá queimar, mesmo um simples carregador ou uma geladeira.

O telefone celular pode ser muito perigoso ao ar livre, durante uma tempestade, em razão de sua irradiação eletromagnética, que facilita a ionização do ar e, consequentemente, a ocorrência de uma descarga elétrica. No final da década de 1990 – se não me engano, foi em 1997 ou 1998 -, um rapaz morreu vítima de um raio, em Vila Maria/RS, quando atendeu o celular, sob a chuva. Ele estava com amigos em campo aberto, mas foi o único que morreu. Segundo os boletins informativos do ELAT [4], as mortes por uso de celular em tempestades continuam a ocorrer.

Interessante é que podemos saber se o raio estiver a ponto de cair, SAIBA O QUE FAZER PARA SALVAR SUA VIDA:

Se você estiver em um local sem um abrigo próximo e sentir que seus pelos estão arrepiados, ou que sua pele começou a coçar, fique atento, já que isto pode indicar a proximidade de um raio que está prestes a cair. Neste caso, ajoelhe-se e curve-se para frente, colocando suas mãos nos joelhos e sua cabeça entre eles. Não fique deitado.” Transcrito do ELAT, da página de proteção de seres humanos.

O ELAT lançou, em 2014, o primeiro documentário sobre os raios no Brasil, chamado “Fragmentos de Paixão” [5]. Em 2017, eles fizeram outro documentário, “Ameaças do Céu”, que chama a atenção para o aumento dos eventos atmosféricos nos últimos anos e mostra os impressionantes impactos dos raios sobre a infraestrutura do setor elétrico.

Portanto, o ELAT [4] é o lugar certo para conhecer mais sobre os raios no Brasil, os conceitos envolvidos, os fenômenos associados, bem como informar-se sobre as diversas pesquisas na área. Como complemento, a norma técnica NBR5419 determina como fazer a proteção de estruturas contra os raios.

As árvores solitárias geralmente morrem ao serem atingidas por raios. Isso ocorre bastante com as araucárias do sul do Brasil (que produzem o apreciado pinhão). São árvores de crescimento rápido, que ostentam a inconfundível copa em forma de taça. Devido ao tronco grosso, reto e alto, esses pinheiros são muito suscetíveis aos raios.

Nos pinheirais (matas nativas de araucárias) de solo plano, coisa raríssima atualmente, devido à intensa exploração dessas áreas, as copas alinham-se umas às outras na parte de cima e formam um interessante e nivelado tapete verde, dando a impressão de que um jardineiro divino as aparou… Como as folhas mais altas estão no mesmo nível, o efeito das pontas é menor, reduzindo a propensão aos raios. É também devido aos raios que as florestas têm uma altura média mais ou menos constante, com as copas tocando umas nas outras, e uns poucos exemplares mais altos.

Como prolongar a vida das árvores

Observe que a principal forma de alimentação das árvores também é a mais frágil parte desses maravilhosos e imprescindíveis organismos de nosso planeta. Em razão da existência das raízes alimentadoras superficiais, é importante evitar o pisoteio frequente no entorno das árvores, pois isso compacta e endurece o solo e dificulta todo o processo de absorção, adoecendo-as.

Muitas prefeituras têm problemas com árvores doentes nas praças, e a razão disso pode ser o tráfego intenso de pessoas na área das raízes superficiais. Uma solução simples seria definir uma trilha e sempre caminhar por ela, como os antigos povos da floresta faziam, com as picadas.

Fig 27 - Árvores com raízes pisoteadas frequentemente, em duas praças de Porto Alegre/RS. São plantas fracas e doentes, que não conseguirão atingir o seu porte normal. Também ficam mais sujeitas a cair, durante os temporais.

Fig 27 – Árvores com raízes pisoteadas frequentemente, em duas praças de Porto Alegre/RS. São plantas fracas e doentes, que não conseguirão atingir o seu porte normal. Também ficam mais sujeitas a cair, durante os temporais.

O paisagista Burle Marx já cuidava disso, pois preferia que os passeios das áreas públicas fossem concluídos depois de algum tempo de uso, para que as pessoas definissem antes os caminhos mais utilizados.

Porque os gramados muito grandes, com ângulos retos e trechos que aumentem, ou não contemplem o trajeto desejado, são solenemente ignorados pelos pedestres… Vide o Eixo Monumental e a Esplanada dos Ministérios, em Brasília/DF (figs. 27 e 28). Chega-se ao absurdo de surgir atalho em trecho de algumas dezenas de metros, todo calçado ao redor, como numa praça de Porto Alegre/RS (fig. 30).

Fig. 28 – Vista do Gramado do Eixo Monumental, com a Esplanada dos Ministérios, ao fundo, Brasília/DF. Observe os traçados mais finos na grama, feitos por pedestres. Fonte: IPHAN [6].

Fig. 28 – Vista do Gramado do Eixo Monumental, com a Esplanada dos Ministérios, ao fundo, Brasília/DF. Observe os traçados mais finos na grama, feitos por pedestres. Fonte: IPHAN [6].

Fig. 29 - Gramado da Esplanada dos Ministérios. Brasília/DF. Os caminhos descritos pelos pedestres são tortuosos e mais finos que as linhas retas, que possivelmente estejam calçadas. Fonte: IPHAN [6].

Fig. 29 – Gramado da Esplanada dos Ministérios. Brasília/DF. Os caminhos descritos pelos pedestres são tortuosos e mais finos que as linhas retas, que possivelmente estejam calçadas. Fonte: IPHAN [6].

Fig. 30 – Atalho entre as árvores de praça toda calçada ao redor, em Porto Alegre/RS.

Fig. 30 – Atalho entre as árvores de praça toda calçada ao redor, em Porto Alegre/RS.

O plantio de árvores nas calçadas

A ideia geral é que para plantar uma árvore, basta abrir um pequeno buraco, colocar a mudinha lá, preencher com terra boa, regar por um tempo e está feito. Mas, nas cidades, é preciso melhorar o lugar aonde a planta crescerá.

Além do gosto pessoal, há aspectos como os requisitos de insolação, solo e umidade, o tipo de folha e de sombra, o formato da copa, o tamanho da árvore adulta, sua ação alelopática (contra ou a favor de outras plantas), etc.. Cada característica assumirá determinada importância para o lugar escolhido e influenciará na seleção da espécie mais adequada para o plantio.

É preciso respeitar outras condições – além da autorização da Prefeitura – para plantar árvores nas calçadas. Que, se não forem atendidas, encurtarão tremendamente a vida da planta. É comum encontrar nos municípios árvores jovens e doentes, que mal chegam aos 20 anos e precisam ser derrubadas. Plantas que poderiam ser centenárias.

O primeiro problema, que costuma ser ignorado, é que A ÁRVORE DEVE SER O CAMINHO DAS ÁGUAS DAS CHUVAS, pois é uma forma de frear os alagamentos, de abastecer o lençol freático e de reduzir a impermeabilidade urbana.

Ocorre que nas cidades o solo é compactado, pois ele é necessário para assentar qualquer obra, seja rua, calçada ou edifício. A compactação comprime os grânulos de terra, diminui a aeração e limita a passagem de água. Portanto, a compactação torna o solo denso e impermeável e pode formar uma barreira física contra a penetração de raízes, literalmente um solo “duro como tijolo”.

Quando as raízes encontram um solo assim, elas mudam de direção, param de crescer ou sobem anormalmente para a superfície, em busca de ar. Se essa terra densa encharcar por muito tempo, as raízes podem apodrecer por falta de oxigênio, levando a árvore a graves doenças ou à morte.

Fig. 31 – Muretas de “proteção” para árvores, que na verdade são prejudiciais às plantas, pois diminuem a coleta das águas das chuvas.

Fig. 31 – Muretas de “proteção” para árvores, que na verdade são prejudiciais às plantas, pois diminuem a coleta das águas das chuvas.

Fig. 32 – Árvore com diminuto espaço para as raízes; a planta aproveitará cada chance para ampliar seu sistema radicular e poderá, ao longo do tempo, levantar a calçada.

Fig. 32 – Árvore com diminuto espaço para as raízes; a planta aproveitará cada chance para ampliar seu sistema radicular e poderá, ao longo do tempo, levantar a calçada.

O hábito de levantar muretas ou deixar pouquíssimo espaço para as raízes nas calçadas amplia o problema, pois impede a drenagem eficiente das águas e limita a absorção de nutrientes pelas árvores (figs. 31 e 32).

O ideal seria plantar árvores abaixo do nível do passeio, mas é preciso garantir que o solo esteja aerado, sem compactação excessiva.

Uma interessante possibilidade para o plantio de árvores em calçadas é o solo estrutural (fig. 33), desenvolvido na década de 1990 pela Universidade de Cornell (Ithaca, NY, EUA) e de uso comprovado na prática, ver referências [7] a [11]. Foi batizado de CU-Structural Soil® ou CU-Soil® (Cornell University Structural Soil), um nome algo infeliz para a nossa língua…

Fig. 33 – Instalação típica de solo estrutural em calçada, imagem traduzida do inglês. Fonte: Cornell University - UHI [7].

Fig. 33 – Instalação típica de solo estrutural em calçada, imagem traduzida do inglês. Fonte: Cornell University – UHI [7].

Fig. 34 – Volumes recomendados de solo estrutural, conforme o tamanho da copa da árvore e utilizando ou não solo rico em nutrientes, para o torrão da muda. Imagem traduzida para o sistema métrico. Fonte: Cornell University - UHI [11].

Fig. 34 – Volumes recomendados de solo estrutural, conforme o tamanho da copa da árvore e utilizando ou não solo rico em nutrientes, para o torrão da muda. Imagem traduzida para o sistema métrico. Fonte: Cornell University – UHI [11].

O solo estrutural aceita a compactação utilizada nas vias públicas e ainda assim mantém as condições para o crescimento das raízes no subsolo, além de evitar que elas subam à superfície. É excelente para implementar calçadões. Estudos indicam que quando comparado ao solo tradicionalmente usado, o CU-Structural Soil® aumenta o enraizamento em 27%. Ele é formado por uma mistura de pedra britada (brita número 3, com tamanho entre 25 e 50mm), impregnada com argila (20%) e matéria orgânica (2 a 5%). Para agregar os componentes mais finos e evitar que migrem, usa-se um impregnante atóxico (Gelscape®). Quando submetida à compactação, a brita nº 3 tem tamanho suficiente para garantir a porosidade (que originalmente é de 40%), mantendo a aeração do local e o escoamento das águas. A argila e a matéria orgânica, em quantidades baixas para também preservar a porosidade e a resistência, facilitam o crescimento e a penetração das raízes.

O polímero insolúvel Gelscape® é um cristal que torna-se gelatinoso ao umedecer, consegue absorver 400 a 500 vezes o seu tamanho em água e minimiza o estresse das plantas em áreas muito secas ou muito úmidas, pois funciona como reservatório (transforma a água em gel, reduzindo a evaporação). É mais conhecido como hidrogel e quando seco, tem aparência de açúcar.

Para plantar uma árvore com o CU-Structural Soil®, calcula-se o volume que a planta necessita para suas raízes, conforme o diâmetro da copa. A relação recomendada é de 2 metros cúbicos de solo estrutural para cada metro quadrado de projeção da copa. Feito isso, abre-se uma vala com o tamanho suficiente e deposita-se o solo estrutural, compactando-o em camadas. Se for uma faixa, a árvore fica no meio dela.

A cova para o tufo das raízes pode ser preenchida com solo de boa qualidade (mistura de matéria orgânica, areia, silte e argila) ou somente com o solo estrutural, a figura 34 mostra as diferenças de volume para cada opção, conforme o tamanho da copa da árvore.

Uma técnica semelhante à empregada para o solo estrutural seria abrir uma vala de 80 cm de profundidade e 80 cm de largura, ou maior, ao longo da linha das árvores da calçada. Daí, deixando livres os locais de plantio das árvores, deitar nessa linha, mantas de feltro sintético (geotêxtil, manta bidim ou mesmo o carpete agulhado fino), com largura de 4 metros, encher essa trincheira com brita nº 3, até a 20 cm do nível da calçada. A brita pode ser compactada em camadas de 20 ou 30 cm. Fechar com o feltro o lado de cima e as extremidades, formando enormes paralelepípedos permeáveis, intercalados com as árvores.

Plantar as árvores nas covas e preenchê-las com solo rico em nutrientes. Depois, nivelar toda a vala com solo, areia e cobrir os últimos centímetros com grama ou algum pavimento poroso, como os bloquetes de concreto, deixando-os pouco abaixo do restante da calçada, para que sirvam de escoadouro. A manta de feltro impede que o solo externo migre e preencha os interstícios da brita. Funciona muito bem como dreno e como depósito de umidade, mas não tem tantos nutrientes como o solo estrutural da Universidade de Cornell (pode-se tentar misturar à brita um pouco de lodo e matéria orgânica, mas com o tempo os sedimentos ficarão no fundo da trincheira, se não forem misturados ao hidrogel).

Essa estrutura de brita nas laterais das ruas também facilita o escoamento das chuvas, de forma mais lenta e constante do que as tradicionais galerias ou manilhas de concreto. Pode até evitar a abertura de crateras durante chuvas fortes, mas deve ser feito um estudo preliminar, para identificar o tipo de terreno, sua capacidade de absorção e a eventual necessidade de alterar o tamanho das trincheiras ou de incluir algum tipo de drenagem das águas pluviais, debaixo das valas.

Fig. 35 - Grades para árvores, de diversos fabricantes europeus (Italian LAB, Metalco, Lebeau, Sitinao, Ironsmith).

Fig. 35 – Grades para árvores, de diversos fabricantes europeus (Italian LAB, Metalco, Lebeau, Sitinao, Ironsmith).

Pode-se então gradear o entorno das árvores, de modo que não atrapalhem a passagem de pedestres e ainda facilitem o escoamento das águas. As grades podem ser muito decorativas (fig. 35), existem diversos modelos, inclusive ampliáveis e são caras, pois geralmente fabricadas em ferro fundido.

Há grades feitas com chapas de ferro e devido à superfície lisa, precisam receber algum tratamento, para evitar que fiquem escorregadias quando molhadas. As peças de ferro fundido geralmente tem a face corrugada, não apresentando o problema.

Também são fabricadas proteções para árvores em concreto pré-moldado, com diversos formatos . Pode-se até montar uma estrutura com tijolos furados, cortados ao meio, deixando os furos na vertical.

Todas essas grades já têm, ou necessitam ficar sobre uma estrutura rígida, que mantenha o nivelamento, para não perturbar o tráfego das pessoas. As figuras 36 e 37 mostram interessantes soluções para esse desafio.

Fig. 36 - Boomkrans - Cimento pré-moldado para árvores. Fonte: Benoton B.V [12].

Fig. 36 – Boomkrans – Cimento pré-moldado para árvores. Fonte: Benoton B.V [12].

Fig. 37 – Paver-Grate – Pavimento poroso para árvores em calçadas – Fonte: Ironsmith [13].

Fig. 37 – Paver-Grate – Pavimento poroso para árvores em calçadas – Fonte: Ironsmith [13].

Devido ao frequente descaso que vemos para com as cidades no Brasil, considera-se alto o custo dessas obras, mas o investimento retorna integralmente quando as árvores cumprem as funções para as quais foram assentadas.

Estas funções incluem a sombra, beleza, conforto térmico, redução de ruído e de ventos, redução da poluição, mitigação de temporais, habitat para animais silvestres, absorção de águas pluviais e até a ajuda na criação de uma identidade cívica, pois quando estamos cercados de beleza, nossa vida torna-se melhor, mais organizada e agradável.

Cidades feias e sujas, onde cada centímetro de chão é disputado, são geralmente violentas e seus habitantes vivem estressados. Do mesmo modo, não adianta embelezar certas áreas da cidade e abandonar outras, porque a sensação de pertencimento ao município só ocorre quando todos os habitantes têm uma vida digna.

Transplante de árvores

O transplante de árvores é uma técnica pouco utilizada no país, geralmente prefere-se o simples corte, por ser mais barato. Entretanto, pode ser compensador remover uma árvore adulta e plantá-la em lugar melhor, afastada de construções, especialmente se for uma frutífera nativa, como a jabuticabeira, por exemplo.

Um pé de jabuticaba, plantado de estaca ou de semente, leva cerca de 10 a 15 anos para começar a frutificar. Essa é a melhor maneira de plantar, porque as mudas francas (espontâneas) duram muito mais do que as enxertadas. Além disso, depois que a jabuticabeira começa a produzir, não para mais e a produção aumenta a cada ano. Cortar uma árvore nessas condições, beira a imbecilidade.

A solução mais coerente, nestes tempos de sustentabilidade, é mudar a árvore de lugar, mas o transplante, além de poder dar errado, é muito prejudicial para a planta, porque o sistema radicular que vai junto com a muda, representa de 5 a 10% das raízes existentes no local de origem.

A árvore a transplantar precisa ser preparada meio ano antes da remoção, com a redução de suas raízes. Cava-se um círculo 6 vezes maior que o diâmetro do caule, abrindo uma trincheira com 60 cm de profundidade. Corta-se todas as raízes nessa trincheira, que logo é preenchida com terra orgânica. Durante este período de preparação, deve-se regar a planta dia sim, dia não. Para mais detalhes, baixe um folheto com instruções da Husqvarna [14], AQUI.

Após o transplante, a árvore deve receber regas periódicas, durante um ano, pelo menos, até estabelecer-se. Com os cuidados adequados, a árvore volta a frutificar em até 2 ou 3 anos. Ela também pode morrer devido à época da mudança – ao final do inverno é ideal. Árvores jovens, por esbanjarem vitalidade, resistem melhor aos transplantes.

Para dar uma ideia de como é trabalhoso o transplante manual de árvores – algo corriqueiro no exterior -, conheça a técnica empregada nos EUA. O vídeo a seguir foi disponibilizado pelo Colégio de Agricultura da Universidade de Kentucky [15], observe o cuidado para com a muda.

O manual mostrado no vídeo é do governo americano e está disponível na referência [16] e AQUI. Ele tem por objetivo padronizar os termos técnicos usados na área de paisagismo e explica detalhadamente como estimar o tamanho da bola de raízes, em função do diâmetro do caule, além de várias outras informações pertinentes para viveiros. Obviamente, o foco da obra é o mercado norte-americano, então as medidas estão em polegadas e pés.

Agora, imagine usar a tecnologia para nos poupar desse esforço físico, eliminando, virtualmente, o tempo gasto para a remoção e plantio de praticamente qualquer tamanho de árvore. Estou falando de uma escavadora hidráulica, a “pá de árvore” (tree spade), que extrai a árvore adulta de uma só vez, junto com a terra e as raízes. Não só extrai, como também transporta e replanta.

Não dá para chamar de “pá hidráulica”, porque este termo refere-se, no Brasil, àquela concha da retroescavadeira que recolhe material para levar a outro lugar, geralmente com a ajuda de um caminhão caçamba. Prefiro chamar a tree spade de “escavadora de raízes”.

Esta máquina foi mostrada recentemente nas redes sociais (2016-17) como uma nova e revolucionária invenção, mas existe desde o começo dos anos 1970 (fig.38). Lá fora, houve demanda por este tipo de equipamento, principalmente devido aos projetos de arborização das cidades, ao comércio desse tipo de plantas, ao cuidado que eles têm para com as árvores e porque as preocupações ambientais passaram a ter importância a partir daqueles anos.

A escavadora de raízes é fabricada em várias nações, por diversas empresas, há tamanhos e formatos para qualquer aplicação, desde modelos que parecem brinquedos de gente grande, até mecanismos imensos (truck spades), acopláveis a um caminhão ou retroescavadeira (figs. 39 e 40). Costumam ter de 2 a 7 pás, retas ou curvas, que cortam o solo ao redor da árvore, formando um tufo com as raízes intactas, pronto para o transplante. Nas pás retas, o ângulo de corte pode variar, dependendo da aplicação. Cada pá tem um mecanismo hidráulico de movimentação, que o operador controla individualmente.

Fig. 38 – Escavadora de raízes da Opitz (atualmente Optimal-Vertrieb Opitz Gmbh), no início dos anos 1970. Fonte: Optimal-Vertrieb Opitz Gmbh [17].

Fig. 38 – Escavadora de raízes da Opitz (atualmente Optimal-Vertrieb Opitz Gmbh), no início dos anos 1970. Fonte: Optimal-Vertrieb Opitz Gmbh [17].

Fig. 39 – Escavadora de raízes Optimal 3000, da Optimal-Vertrieb Opitz Gmbh. Fonte: Grünwert [18].

Fig. 39 – Escavadora de raízes Optimal 3000, da Optimal-Vertrieb Opitz Gmbh. Fonte: Grünwert [18].

Fig. 40 – Escavadora de raízes Damcon KLR-300. Fonte: Damcon B.V. [19].

Fig. 40 – Escavadora de raízes Damcon KLR-300. Fonte: Damcon B.V. [19].

Dieter Opitz, fundador da empresa alemã Optimal-Vertrieb Opitz Gmbh inventou a primeira máquina escavadora de raízes em 1971 [17]. Empresa tradicional no ramo, fabrica vários modelos, o menor deles faz uma cova de 36 centímetros de diâmetro e o maior alcança 2,5 metros de diâmetro, com profundidade de 1,5 m. Há modelos de escavadoras que removem as raízes como se fossem colheres para sorvete e formam uma bola com o torrão, como os modelos Optimal P650 e 3000 (este último na fig. 39).

Os dois vídeos a seguir exibem transplantes feitos com as escavadoras Optimal 760 e 3000. No terceiro deles, a empresa demonstra que a pá pode trabalhar até debaixo d’água. Ela está na grande obra de ampliação da infraestrutura marítima, no Principado de Mônaco, o novo eco-distrito chamado L’Anse du Portier, iniciado em 2016 e previsto para ser concluído em 2025. O empreendimento fará um aterro de 6 hectares mar adentro, no bairro de Monte Carlo e pretende ser ecologicamente correto. A escavadora Optimal 880 está acoplada a uma lança extralonga de retroescavadeira, estacionada sobre uma plataforma flutuante, para o transplante da grama Netuno (Posidonia oceanica), que povoará o fundo do mar. Mais detalhes nas referências [20], [21] e [22].

No Canadá, a empresa Dutchmaster Nurseries Inc. é um viveiro de 650 hectares, que trabalha com árvores adultas, além de outros cultivos. Iniciou suas atividades na década de 1970 e seu fundador, o imigrante holandês Henry Tillaart, com a intenção de diminuir o tempo gasto em transplantes, desenvolveu uma escavadora de raízes, semelhante à da Optiz.

Como outras empresas do ramo manifestaram interesse no equipamento, foi fundada a subsidiária Dutchman Industries Inc. [23], que atualmente fabrica uma grande variedade de máquinas e acessórios para o manejo de plantas. Além das escavadoras de raízes, há um artefato que amarra a copa da árvore, automaticamente, o que reduz o espaço necessário para o transporte e evita danos aos galhos. O vídeo de apresentação da empresa dá uma ideia das opções disponíveis e da impressionante estrutura de um viveiro de árvores. Em 2013, o IBF (Instituto Brasileiro de Florestas) fez uma parceria com a Dutchman [24], que pretendia instalar uma fábrica no país, mas desconheço a situação atual do acordo.

 

Há vários outros fabricantes de escavadoras de raízes, como a holandesa Damcon B.V. [19] e as americanas Tree Jack [25], Big John [26], Bobcat [27], Erksine [28], Holt [29], Lemar [30], OXXN e Vermeer.

Por ampliar radicalmente as possibilidades de manejo das plantas, as escavadoras de raízes deveriam existir em cada cidade, tanto nas secretarias de obras das prefeituras como nos viveiros. A cidade de Curitiba/PR já tem uma dessas, desde 1994 [1][31].

Com máquinas assim, seria mais simples e rápido cuidar das árvores, poderíamos embelezar as praças, calçadões, ruas, jardins, quintais, pomares, margens de rios e estradas num piscar de olhos. A empresa alemã DGG International [32], especializada em transplante e manejo de árvores, mostra vários exemplos do “antes” e “depois”, vale a pena conferir.

Imagine povoar extensas áreas com árvores já adultas, em poucos dias. Necessitaríamos de fornecedores especializados neste tipo de mudas, com enormes viveiros. Também seria possível – e até mais barato – remover espécimes grandes, sem matá-los, o que facilitaria as obras de paisagismo e ampliaria o comércio de mudas de plantas perenes.

O problema maior talvez seja o tamanho de alguns equipamentos, que dificultam o acesso aos locais de remoção e plantio, porque o espaço nas cidades brasileiras é disputado ao extremo, além da fiação elétrica e de comunicações, sempre aéreas, atrapalharem muito.

Em terrenos que darão lugar a edifícios, já constatei o corte de muitas árvores grandes, nativas e/ou frutíferas e até o desaparecimento de pomares inteiros. Dói na alma ver esse descaso. As árvores levam décadas para crescer, mas para destruí-las, bastam alguns minutos.

Enchemos a boca para falar que temos no Brasil a maior biodiversidade do planeta, mas em que medida cuidamos para que isso continue assim para sempre? Por acaso é um assunto que se resolve por si, sem depender de nós?

As árvores desempenham um papel crucial na preservação ambiental, mas por aqui são praticamente inexistentes os cursos técnicos de arboricultura ou de arboristas (especialistas em árvores). Mesmo nas prefeituras, que são as responsáveis pelo cuidado das árvores urbanas, os recursos sempre são limitados para formar seus técnicos.

Uma observação: o curso de arboricultura destina-se a conhecer as árvores, suas formas de crescimento e manejo, além dos cuidados sanitários. É diferente do curso de dendrologia, que foca a descrição, coleta e o uso comercial das plantas.

Voltando ao assunto dos transplantes. Para avaliar a saúde ou preparar o transplante de uma árvore, é importante saber o estado das raízes e para isso, existem os detectores de raízes [33] e radares de penetração no solo (GPR – Ground-penetrating radar) [34], que funcionam com ultrassom, ondas curtas ou micro-ondas. São equipamentos que mapeiam as raízes (alguns também o tronco) e geram imagens tridimensionais, mas não permitem visualizar muitos detalhes.

Fig. 41 – Pá pneumática (air spade), modelo 3000, do fabricante de mesmo nome. Fonte: AirSpade® [35].

Fig. 41 – Pá pneumática (air spade), modelo 3000, do fabricante de mesmo nome. Fonte: AirSpade® [35].

Fig. 42 – Comparação entre um bocal comum e o bocal supersônico, que é de aço inox. Fonte: AirSpade® [35].

Fig. 42 – Comparação entre um bocal comum e o bocal supersônico, que é de aço inox. Fonte: AirSpade® [35].

 

Agora, imagine enxergar realmente as raízes. Para visualizar a árvore como um todo, usa-se a pá pneumática ou “pá de ar” (air spade), que está revolucionando a arboricultura. É uma ferramenta de escavação a ar comprimido, desenvolvida inicialmente para uso militar, para limpar terrenos minados.

A ponteira é parecida com a da lavadora de alta pressão, mas sem água (fig. 41). Ela emite um jato de ar supersônico e bem dirigido, como se fosse um “laser de ar” (fig. 42). É fabricada pela AirSpade®, uma divisão da Guardair Corporation [35][36].

O jato de ar alcança a velocidade mach 2 (2500 km/h), penetra e fratura materiais porosos e quebradiços como o solo, mas contorna inofensivamente materiais não porosos, como as raízes, os cabos e os dutos enterrados. Também consegue fraturar rochas fracas e solos nos quais a pá comum não consegue penetrar.

A pá pneumática requer grandes volumes de ar comprimido, para dar conta disso utiliza-se compressor industrial a diesel, que é autônomo e transportável até o local de trabalho. Dependendo do modelo da ferramenta e do bocal utilizado, pode necessitar uma vazão de 25 a 330 ft³/min (pés cúbicos por minuto, cerca de 0,7 a 9 metros cúbicos por minuto), sob pressão de 90 psi (6,2 bar).

Fig. 43 – Sistema radicular de árvore exposto após escavação com pá pneumática, observe como são finas e inúmeras essas raízes. Fonte: BoomOntzorging [37].

Fig. 43 – Sistema radicular de árvore exposto após escavação com pá pneumática, observe como são finas e inúmeras essas raízes. Fonte: BoomOntzorging [37].

Fig. 44 – Raízes de um bosque, expostas através da escavação a ar. Alguma vez você imaginou que elas fossem assim, entrelaçadas? Fonte: Research Gate [38].

Fig. 44 – Raízes de um bosque, expostas através da escavação a ar. Alguma vez você imaginou que elas fossem assim, entrelaçadas? Fonte: Research Gate [38].

 Fig. 45 – Raízes expostas por escavação pneumática, percebe-se que são bastante superficiais, e grossas somente junto do tronco. Fonte: Research Gate [38].


Fig. 45 – Raízes expostas por escavação pneumática, percebe-se que são bastante superficiais, e grossas somente junto do tronco. Fonte: Research Gate [38].

A escavação com a pá pneumática é duas a três vezes mais veloz do que a escavação manual, além de danificar muito menos as raízes. Dependendo do tipo de solo e do modelo da ferramenta, é possível extrair de 0,4 a 4 ft³/min (0,011 a 0,11 m³/min). Ou seja, a cada minuto você pode remover até 11 cm de um metro quadrado de solo.

É ferramenta muito barulhenta, emite 120 dB de ruído, igual à decolagem de um avião a jato, por isso é imprescindível o uso de protetores auriculares, além de vestimenta especial contra particulados e proteção para os olhos e vias respiratórias. Para evitar o espalhamento do solo, é necessário colocar barreiras de proteção no entorno do local de trabalho.

Também é ferramenta muito potente, durante a operação a força contrária ao longo do eixo do jato de ar alcança 10 kg (no modelo AirSpade® 3000). Em razão disso, o operador deve segurá-la firmemente e estar com os pés e braços bem posicionados, numa posição estável e equilibrada.

A haste que une o bocal ao manípulo é feita de fibra de vidro reforçada, bastante leve e não condutora de eletricidade, provavelmente para evitar problemas de estática. Há também um manômetro junto ao acionador, para conferir a pressão do ar comprimido.

O resultado do trabalho é impressionante (figs. 43 a 45). Com a remoção do solo, pode-se inspecionar visualmente as raízes e fazer um diagnóstico preciso de enfermidades. É fácil identificar, por exemplo, o ataque de nematoides ou o apodrecimento do sistema radicular.

Fig. 46 – Técnicas de mulching vertical em árvores. À esquerda, valas e à direita, buracos, ambos feitos com pá pneumática. Fontes: Anthony Tree Experts [39] e Golden Rule Soil [40].

Fig. 46 – Técnicas de mulching vertical em árvores. À esquerda, valas e à direita, buracos, ambos feitos com pá pneumática. Fontes: Anthony Tree Experts [39] e Golden Rule Soil [40].

A pá pneumática pode ser usada para remover o solo compactado ou pobre em nutrientes, que pode ser trocado ou misturado com outro mais arejado e rico. Ela também serve para a adubação vertical de árvores (vertical mulching), que consiste de buracos verticais (vertical holes) ou valas radiais (radial trenching). São geralmente cavados debaixo da copa e preenchidos com matéria orgânica, para ajudar na oxigenação e nutrição das raízes, bem como na penetração da água (fig. 46). É uma técnica útil em áreas de drenagem deficiente, com solos compactados ou impermeáveis, ou compartilhados com plantas perenes, às quais se deseja a mínima perturbação. Deve-se evitar altas concentrações de nutrientes nestes buracos e trincheiras, que poderão atrapalhar o crescimento saudável e uniforme das raízes.

Fig. 47 – Muda com raiz nua, pronta para o plantio. Observe que as raízes estão úmidas. Fonte: Schichtel’s Nursery [41].

Fig. 47 – Muda com raiz nua, pronta para o plantio. Observe que as raízes estão úmidas. Fonte: Schichtel’s Nursery [41].

Fig. 48 – Transplante de árvore adulta katsura ou árvore-caramelo (Cercidiphyllum japonicum), feita em fevereiro de 2013, quando é inverno na metade norte do planeta. Escavação inicial do solo, com a definição do perímetro das raízes que irão com a planta. Fonte: Taking Place In The Trees [42].

Fig. 48 – Transplante de árvore adulta katsura ou árvore-caramelo (Cercidiphyllum japonicum), feita em fevereiro de 2013, quando é inverno na metade norte do planeta. Escavação inicial do solo, com a definição do perímetro das raízes que irão com a planta. Fonte: Taking Place In The Trees [42].

Fig. 49 – Escavação final das raízes da katsura, para o transplante com raiz nua. Fonte: Taking Place In The Trees [42].

Fig. 49 – Escavação final das raízes da katsura, para o transplante com raiz nua. Fonte: Taking Place In The Trees [42].

Fig. 50 – Amarração das raízes da katsura, para dar maior rigidez à árvore e evitar danos às raízes. Fonte: Taking Place In The Trees [42].

Fig. 50 – Amarração das raízes da katsura, para dar maior rigidez à árvore e evitar danos às raízes. Fonte: Taking Place In The Trees [42].

Fig. 51 – Transporte da katsura. Fonte: Taking Place In The Trees [42].

Fig. 51 – Transporte da katsura. Fonte: Taking Place In The Trees [42].

Fig. 52 – Quatro meses depois, em julho de 2013, no verão do hemisfério norte, a katsura já estava com a copa coberta de folhas, um excelente trabalho de transplante. Fonte: Taking Place In The Trees [43].

Fig. 52 – Quatro meses depois, em julho de 2013, no verão do hemisfério norte, a katsura já estava com a copa coberta de folhas, um excelente trabalho de transplante. Fonte: Taking Place In The Trees [43].

O transplante de árvores com raiz nua (bare root) foi muito beneficiado pela pá pneumática. É um método bastante antigo, no qual todo o solo, ou a maior parte dele é removido das raízes, cuidadosamente (fig. 47). A muda pode ser embalada para plantio posterior. Essa técnica é muito utilizada para mover árvores que cresceram junto de construções.

O blog Take In Place The Trees (algo como “Coloque lugares nas árvores” [42[43]), de Débora Howe, mostra detalhadamente o transplante de uma faia (Fagus sylvatica), planta de origem europeia e muito ornamental, com aparência semelhante ao cipreste, altura até 20 metros, folhas ovaladas caducas e frutos oleaginosos razoavelmente comestíveis. Sua madeira é usada como lenha e na construção de móveis, especialmente os compensados vergados. É dela que se extrai o creosoto. A faia, ainda pequena, estava junto da parede de uma casa e foi movida alguns metros à frente, onde ficou livre para crescer. Vale a pena conferir a página da referência [44], é muito instrutiva, os tradutores automáticos da web estão aí para isso.

Na técnica de raiz nua, após a retirada do solo, é importante manter as raízes sempre úmidas, porque podem morrer se ficarem secas, mesmo por pouco tempo. Tradicionalmente, as raízes são imersas em serragem úmida, que deve ser mantida assim até o momento do plantio.

Também pode-se usar uma solução com hidrogel bem fino (até 1mm), que deverá ser misturado à água por meia hora ou mais, para que alcance sua capacidade máxima de absorção, formando uma pasta. As raízes são mergulhadas nessa solução, por algum tempo. Com um saco plástico folgado o suficiente para as raízes, a muda é então retirada da solução e ensacada rápida e cuidadosamente, evitando sacudir. A embalagem e o hidrogel possibilitam manter as raízes úmidas até o plantio.

Não sei como ficam as condições da microvida no solo, com a adição do hidrogel, substância sintética. Algumas pesquisas o consideram benéfico ou não influente para a produção de mudas, inclusive no uso com o solo estrutural, no entanto seria interessante dispor de estudos de longo prazo, que confirmassem definitivamente essa característica.

A remoção da terra das raízes é feita até uma semana antes do plantio (em lugares frios o tempo pode ser maior) e somente na época de dormência, no final do outono ou no inverno. Para não quebrar a dormência, a muda precisa ficar refrigerada entre 0°C e 5°C, isso facilita o trabalho dos viveiros, que podem estocá-las até o momento da venda. Nos EUA e Canadá, os viveiros têm um período bem definido no qual eles vendem essas mudas, não é o ano todo.

Se for plantada no inverno, a muda não brotará imediatamente e terá condições de adaptar-se ao ambiente, até a chegada da primavera, quando estará pronta para crescer. Outras fontes recomendam transplantar no início da primavera. Mais detalhes nas referências [45] a [50].

No dia anterior ao plantio definitivo, as raízes são mergulhadas em água, por 3 a 6 horas. A cova deve estar inteiramente livre, para que as raízes possam ocupar o seu lugar, ela é pouco profunda e seu diâmetro deve ser 3 vezes maior que o das raízes. A árvore deve ser mantida na vertical e é necessário cuidar para que o nível do terreno fique exatamente no colar de raízes – ponto onde surgem as raízes laterais – ou um pouco abaixo dele, pois são as raízes que devem ficar cobertas pelo solo e não o tronco. Pode-se fazer isso com a muda amarrada a uma taquara ou ripa comprida, deitada sobre o terreno, exatamente sobre o meio do buraco.

Preencher a cova cuidadosamente com a terra removida anteriormente ou com solo rico em nutrientes, mas já bem curtido. Quando chegar até a metade da profundidade, regar copiosamente e remover os bolsões de ar, com a ajuda de uma vara. Preencher o restante da cova e pressionar gentilmente a superfície. Por fim, deitar sobre a terra cerca de 5 a 10 cm de matéria orgânica (compostagem, serapilheira, palha, serragem curtida, mulching), para manter a umidade. Evitar que a matéria orgânica encoste no tronco. É costumeiro fazer uma pequena elevação ao redor da planta, na borda da cova, para garantir mais umidade. Não é recomendado colocar fertilizante em mudas novas.

O escoramento das mudas de raiz nua pode ser necessário no primeiro ano para árvores muito finas e altas, com raízes curtas, com copas grandes e em locais sujeitos aos ventos ou ao vandalismo. Deve ser permitido algum movimento, para a planta engrossar mais rapidamente. Durante a primeira estação depois do plantio, a muda deve ser diligentemente regada, mais de uma vez por semana, se o lugar for seco. Retirar as plantas que surgirem no entorno e manter a cobertura de matéria orgânica, incorporar mais se necessário.

Com a técnica de transplante de raiz nua, é possível preservar 200% a mais das raízes e reduzir o custo de transplante em até um terço, comparado ao modo tradicional (que mantém o torrão das raízes), além de facilitar o serviço, pela grande redução de peso. Quando corretamente embaladas, as mudas podem ser estocadas ou transportadas. Nos EUA e Canadá, consegue-se comprar mudas de árvores de viveiros situados a 5000 km de distância, sem contratempos [45].

O método de raiz nua é adequado para transplantar árvores pequenas, com caule de até 5 cm de diâmetro, apesar de algumas empresas o utilizarem com árvores maiores. Nas figuras 48 a 51 é mostrado o transplante da ornamental katsura (Cercidiphyllum japonicum) [51], também conhecida por árvore-caramelo, devido ao delicioso aroma de algodão-doce, exalado pelas folhas caídas no outono. É uma planta originária da Ásia, apta ao clima temperado, de porte médio (12 metros de altura em 20 anos), que cresce em áreas ensolaradas ou à meia sombra, com solo rico, bem drenado, mas úmido. Suas folhas têm formato de coração e exibem tons avermelhados quando nascem na primavera, passando para o verde-claro e levemente azulado no verão. No outono, dependendo do pH do solo as folhas podem tingir-se de amarelo, laranja ou rosa. A planta pode ser masculina (flores vermelhas) ou feminina (flores verdes) e adapta-se bem ao bonsai.

Fig. 53 – “Árvore-vulcão”, envolta com matéria orgânica demasiadamente alta, que pode levar a planta à morte. Fonte: Reed’s Garden Ramblings [52].

Fig. 53 – “Árvore-vulcão”, envolta com matéria orgânica demasiadamente alta, que pode levar a planta à morte. Fonte: Reed’s Garden Ramblings [52].

Um procedimento muito perigoso para a árvore é a cobertura periódica do entorno do tronco com matéria orgânica, elevando aos poucos o nível do solo, até que resulta naquela aparência de “árvore vulcão” (tree volcano – fig. 53). Esta prática reduz a oxigenação das raízes superficiais e pode levar a planta à morte. Também é a causa principal do crescimento de raízes atravessadas, que atrapalham o desenvolvimento do vegetal. O correto é que o nível do solo sempre permaneça o mesmo, ano após ano.

Costuma-se também plantar espécies de grande porte em receptáculos (containers, em inglês, fig. 54), mas os vasos são muitos limitantes para as plantas, sejam árvores ou arbustos. As raízes alimentadoras, que deveriam estar espalhadas sobre o terreno, ficam confinadas ao recipiente e por isso crescem junto à parede, buscando desesperadamente mais umidade (ou uma saída). Se removermos qualquer planta de um vaso, onde tenha ficado alguns anos, suas raízes sempre estarão enroladas por todo o recipiente. Obviamente, plantas com pequeno sistema radicular, como boa parte das suculentas, em geral não fazem isso.

Plantar árvores em vasos obriga a cuidados frequentes, como a poda, a rega (devido à pequena reserva de umidade), bem como ao periódico corte das raízes e aumento do recipiente. Caso contrário, as mudas viverão sob constante estresse e doentes. Mal comparando, o plantio em grandes vasos deveria seguir os mesmos procedimentos e técnicas do Bonsai, guardadas as diferenças de tamanho e do esforço físico de manejo…

Fig. 54 – Vasos com mudas de ficus, uma espécie extremamente resistente e invasiva, que aguenta crises hídricas e maus tratos, mas, ainda assim, pode sofrer. Fica na entrada de um shopping em Porto Alegre, RS.

Fig. 54 – Vasos com mudas de ficus, uma espécie extremamente resistente e invasiva, que aguenta crises hídricas e maus tratos, mas, ainda assim, pode sofrer. Fica na entrada de um shopping em Porto Alegre, RS.

Mais detalhes sobre as raízes das árvores, você encontrará em alguns artigos traduzidos para o português, baixe-os DAQUI, DAQUI e DAQUI. São textos bastante explicativos, que ampliam nosso conhecimento sobre a parte “escondida” das plantas, vale a pena lê-los, trazem ótimas e importantes informações. Nas referências [53], [54] e [55], estão os artigos originais, em inglês.

AQUI você pode acessar outro texto que traduzi livremente, sobre os modos de preservar árvores em terrenos que serão terraplanados para futuras construções. O artigo original é do Texas AgriLife Extension Service (Serviço de Extensão Agrícola AgriLife do Texas) [56] e contém muita informação valiosa.

O Instituto Urbano de Horticultura da Universidade Cornell – UHI, por sua vez, tem excelentes artigos sobre arborização, acesse as referências [57] a [59]. E um artigo de Murielle Ghestem, Roy C. Sidle e Alexia Stokes demonstra a influência das raízes sobre o fluxo de água do subsolo [60].

Esses artigos em inglês servem como comparativo aos trabalhos divulgados no Brasil, quando o assunto é arborização. Há boa diferença na profundidade da abordagem, apesar de algumas iniciativas interessantes, como o blog Estude Agronomia [61], que tem um post muito detalhado sobre o modo de fazer uma cova para plantio de frutífera. Há outros bons artigos lá: “Como fazer horta em casa”, “Como plantar morangos orgânicos”, “Como preservar fontes de água”, etc., vale a pena acessá-los.

O blog português “O meu Jardim” [62] tem dicas práticas sobre o plantio de árvores e o IPEF (Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais) [63] é outro que publica uma série de artigos sobre a conservação de árvores. A Embrapa também tem trabalhos sobre arborização, um deles trata do uso de espécies da caatinga para arborização no semiárido [64].

Se o problema for de maior envergadura, como aquelas prefeituras que precisam cuidar das árvores de toda a cidade, o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) comercializa um sistema de gerenciamento de arborização (ARBIO), que ajuda bastante. O IPT cria e desenvolve soluções tecnológicas em diversas áreas do conhecimento [65].

Há também um movimento no Brasil pelas “calçadas verdes”, que é interessante conhecer, pois eles tentam tornar mais agradável a vida nas cidades. Afinal, as calçadas deveriam ser uma extensão dos jardins de nossas casas. Tem um livro sobre o assunto, verifique a referência [66].

Continuando nosso passeio pelas maravilhosas e essenciais árvores, agora que já sabemos (exaustivamente?) da importância das raízes, vamos compreender o restante dessas plantas.

A seiva, o alburno, a fotossíntese, o câmbio

A água e os nutrientes recolhidos do solo pelas raízes compõem a seiva bruta, que sobe por dentro do alburno, no caule.

A seiva bruta chega até as folhas, onde é realizada a fotossíntese, um processo bioquímico que produz uma série de açúcares essenciais para nutrir a planta. Esses açúcares são chamados de seiva elaborada, que desce pelo câmbio, até as raízes.

O câmbio, que fica entre a casca e o alburno, é a fina camada onde a árvore monta sua estrutura e vai engrossando. Na época de desenvolvimento mais intenso (temperatura amena, com fartura de sol e água) é mais fácil de descascar as árvores, pois o câmbio tem uma ligação mecanicamente fraca entre o alburno e a casca, justamente para permitir o crescimento.

Fig. 55 - Partes constituintes das árvores.

Fig. 55 – Partes constituintes das árvores.

A árvore vai aumentando em altura e conforme passa o tempo, os galhos mais velhos e baixos são extintos e dão lugar a outros, mais novos e altos.

Se olharmos o fluxo de seiva no tronco principal, junto das raízes, os galhos antigos recebem seiva bruta da parte mais central do alburno e os ramos mais jovens são alimentados pelas camadas proporcionalmente mais externas.

Nas pontas, entretanto, os galhos novos ainda não formaram anéis e há somente um alburno. Por isso, os ramos que brotarem desses galhos, sempre terão origem da parte central deles (fig. 58). Os locais de brotamento desses ramos formam os conhecidos nós da madeira.

No caso do corte de um galho, os nós ficam expostos e podem tornar-se a porta de entrada para uma série de doenças, se não for feita alguma proteção. Dependendo do vigor da árvore, o câmbio forma calos ao redor desses nós e quando consegue cobri-los (pode levar anos), evita a instalação de fungos, bactérias, outras plantas e animais.

Fig. 56 - Brotos junto à borda de galho seccionado de oliveira. Em raízes cortadas ocorre o mesmo.

Fig. 56 – Brotos junto à borda de galho seccionado de oliveira. Em raízes cortadas ocorre o mesmo.

Fig. 57 - Cicatriz de remoção de um grande galho, onde aparece na borda de corte um calo espesso, que ainda não conseguiu cobrir o ferimento.

Fig. 57 – Cicatriz de remoção de um grande galho, onde aparece na borda de corte um calo espesso, que ainda não conseguiu cobrir o ferimento.

Fig. 58 - Discos do caule de um algodoeiro, com cerca de 4 anos, serrados no ponto de brotamento de um ramo lateral. Esse ramo, quebrado anteriormente e já seco, deu início ao apodrecimento interno, ainda em fase inicial (áreas escuras no pedaço da direita). Observe que o resto do caule está sadio.

Fig. 58 – Discos do caule de um algodoeiro, com cerca de 4 anos, serrados no ponto de brotamento de um ramo lateral. Esse ramo, quebrado anteriormente e já seco, deu início ao apodrecimento interno, ainda em fase inicial (áreas escuras no pedaço da direita). Observe que o resto do caule está sadio.

Os galhos brotam a partir de posições fixas, bem determinadas, eles não sobem com o crescimento da árvore, como muitos pensam. No vídeo abaixo, que mostra a brotação em um pé de oliveira, isso fica evidente. Os brotos podem ficar latentes por boa parte da vida do vegetal, de modo a garantir que apareçam galhos novos e baixos, se a sobrevivência da árvore depender disso. O carvalho, a oliveira e o manacá da serra, por exemplo, usam desse recurso.

A oliveira, aliás, é interessante, é uma planta muito resistente e lutadora, com reprodução facílima por estaquia: se você enterrar mais da metade de um galho de uns 30 cm, ele brotará. Se o lugar for bem frio no inverno, a oliveira dará azeitonas depois de uns 8 ou 10 anos, sem precisar de planta companheira. E os pássaros adoram aquele fruto amargo…

Vídeo time-lapse de oliveira crescendo, evidenciando a brotação em altura fixa.

Voltando ao nosso assunto: ao longo de muitos anos, a parte mais central do alburno, que alimentava os galhos extintos, deixa de transportar seiva bruta e também morre, transformando-se em cerne, uma madeira resinosa, escura, densa e muito dura, própria para sustentar o vegetal. Agora, a seiva bruta sobe apenas pela parte mais externa do velho tronco, nas camadas recentes de alburno, que alimentam os ramos e folhas mais jovens e altos. Árvores com cerne não dobram-se facilmente ao vento, são mais rijas. Geralmente, o cerne leva várias décadas para surgir e quanto mais velha, grossa e alta a árvore, mais área do tronco ele ocupa.

E assim a vida segue, a cada ano uma nova camada de tecidos vivos cobre toda a superfície da árvore, engrossando-a de cima a baixo. Essa camada forma um anel, que é mais evidente se o inverno e verão são bem demarcados, pois retrata os diferentes ritmos de crescimento durante as estações (fig. 59).

Fig. 59 - Anéis do tronco de um pinheiro, que mostram o “currículo” da planta. Fonte: Universo de la Maga [67].

Fig. 59 – Anéis do tronco de um pinheiro, que mostram o “currículo” da planta. Fonte: Universo de la Maga [67].

Esses anéis anuais podem ser vistos ao seccionarmos perpendicularmente um galho ou tronco e indicam a idade daquela parte da árvore. Cada anel forma o alburno que alimenta os galhos que cresceram naquele ano. Portanto, os anéis contam a história da árvore, são o currículo do que aconteceu com ela ao longo da vida. O americano Andrew Ellicott Douglass é considerado o pai da dendrocronologia, área que estuda os anéis das árvores [68].

É mais fácil ver os anéis em árvores de folhas caducas (caducifolia – que perdem as folhas no outono ou inverno), pois elas entram em dormência nesse período e praticamente não crescem. Nas árvores de folhas perenes (perenifolia), típicas de zonas mais quentes, e os anéis são confusos, geralmente em dobro, pois essas nunca param de crescer. Os anéis são bem mais visíveis nas regiões de clima temperado ou frio, devido ao inverno rigoroso, que obriga as plantas a reduzir seu metabolismo.

É possível que a árvore adapte o caminho da seiva bruta pelo alburno, para garantir sua sobrevivência em caso de agressões, como a quebra de um galho ou uma poda. Digo isso porque ao serrar o ligustro, esperava encontrar um pouco de cerne, visto que os galhos mais baixos tinham sido removidos há bastante tempo. Mas, todas as camadas de alburno no tronco ainda estavam vivas, circulando seiva (rever fig. 16).

Mais informações sobre as árvores podem ser consultadas nas referências [69] a [73], alguns artigos estão em espanhol, uma das línguas irmãs do português.

Uma curiosidade sobre árvores e radiofrequências: pegue um rádio portátil de Amplitude Modulada (AM) e leve-o à noite, para junto de uma árvore. Ao aproximá-lo do tronco, verá que a planta funciona como antena, melhor quanto mais alta e saudável ela for. Descobri isso nas madrugadas como soldado de guarda, no quartel. Em noites de céu limpo, junto a um pinheiro ou eucalipto, eu conseguia ouvir perfeitamente, no noroeste do RS, emissoras de Ondas Médias de SP e arredores, num rádio de bolso de duas pilhas pequenas…

Hoje, com a interferência gerada pelos chaveamentos de alta frequência, existentes em qualquer aparelho eletrônico – seja um celular, uma TV ou um carregador -, o resultado poderá ser decepcionante. Em áreas rurais ou afastadas de outros aparelhos, a interferência é menor e talvez ainda seja possível ouvir algumas rádios longínquas.

Voltando às nossas árvores, vamos tratar de um assunto muito presente no dia-a-dia das cidades, mas também muito negligenciado: a poda. Devido ao mesmo descaso com os custos de obras para nossos passeios, a poda das árvores deveria ser um caso de polícia, pois o descuido é a regra. Poucas cidades mantém funcionários em quantidade suficiente, treinados e aptos para o manejo das árvores, sem falar que a continuidade dos serviços nunca fica garantida quando o prefeito que entra é opositor daquele que sai.

A poda das árvores

Sabe-se que o câmbio sadio é o que garante longa vida às árvores, algumas conseguem atravessar milênios. Aqui na América Latina, temos o Gran Abuelo (grande avô), um alerce do Chile, com mais de 3640 anos (figs. 60 e 61). O povo mapuche o chama de Lahuén. O alerce é uma conífera (árvore em forma de cone), um tipo de pinheiro, cujo corte é proibido no país. Os chilenos suspeitam que podem haver exemplares mais antigos ainda, em áreas ainda inexploradas [74][75].

A árvore mais antiga do planeta, até o momento, está na Noruega, é a “Velha Tjikko”, um abeto com raízes de 9500 anos [76].

No Brasil, a árvore mais idosa (em 2018) é um jequitibá-rosa, chamado de “Patriarca”, ou “Patriarca da floresta”, com cerca de 3000 anos (fig. 62). A imponente árvore fica no Parque Estadual de Vassununga, em Santa Rita do Passa Quatro/SP. Mede 40 metros de altura, tem um diâmetro de 3,6 m e precisa de 10 pessoas para abraçá-lo [77].

A sumaúma da Amazônia é a maior árvore do país e uma das maiores do mundo (fig. 63). A idade de um exemplar da Floresta Nacional do Tapajós (FLONA), na Comunidade Maguari, beira os 1000 anos (fig. 64). É a “Sumaúma Vovó”, que precisa de 30 pessoas para abraçá-la, pois tem um perímetro de 40 metros e já atingiu 80 metros de altura! Quem sabe, descubram algum exemplar escondido pela Amazônia, maior e mais velho ainda, é só chegar antes dos madeireiros. A sumaúma é considerada sagrada pelos índios, eles a chamam de “a mãe de todas as árvores” [78][79][80].

Aqui no sul, temos em Canela/RS, no Parque do Pinheiro Grosso, a maior araucária conhecida até o momento, com aproximadamente 700 anos. O lugar foi preparado para manter a árvore viva por muito tempo ainda, pois tem um estrado para evitar o pisoteio das raízes superficiais [81]. Apesar disso, sempre tem gente que descumpre as recomendações e tira fotos junto do tronco.

Fig. 60 – Tronco do Alerce Gran Abuelo (ou Lahuén, segundo o povo mapuche). Fonte: Leo Prieto [74], foto de Rodrigo Jiménez.

Fig. 60 – Tronco do Alerce Gran Abuelo (ou Lahuén, segundo o povo mapuche). Fonte: Leo Prieto [74], foto de Rodrigo Jiménez.

Fig. 61 – Copa do alerce Gran Abuelo (Lahuén). Fonte: Leo Prieto [74].

Fig. 61 – Copa do alerce Gran Abuelo (Lahuén). Fonte: Leo Prieto [74].

Fig. 62 – Jequitibá-rosa Patriarca. Observe a pessoa ao pé da árvore. Fonte: Áreas Verdes das Cidades [77].

Fig. 62 – Jequitibá-rosa Patriarca. Observe a pessoa ao pé da árvore. Fonte: Áreas Verdes das Cidades [77].

Fig. 63 – Sumaúma vista de longe. Fonte: Argus Engenharia [78].

Fig. 63 – Sumaúma vista de longe. Fonte: Argus Engenharia [78].

Fig. 64 – Sumaúma Vovó – Fonte: Viajali [79].

Fig. 64 – Sumaúma Vovó – Fonte: Viajali [79].

Fig. 65 – Pinheiro multissecular. Fonte Viagens e Caminhos [81].

Fig. 65 – Pinheiro multissecular. Fonte Viagens e Caminhos [81].

Fig. 66 – Ilustração de Von Martius, do livro Flora Brasiliensis, um dos resultados da expedição que fez ao Brasil entre 1817-1820. Fonte: Revista História Ciências Saúde [82].

Fig. 66 – Ilustração de Von Martius, do livro Flora Brasiliensis, um dos resultados da expedição que fez ao Brasil entre 1817-1820. Fonte: Revista História Ciências Saúde [82].

Na figura 66, Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868) mostra de forma estupenda as árvores que ele encontrou no Brasil, pode-se imaginar o tamanho delas e o que deveriam ser as florestas antigamente. Ele veio em dezembro de 1817, no cortejo matrimonial (Missão Austríaca) da então futura Imperatriz Leopoldina, que havia casado por procuração com Dom Pedro I, em maio de 1817.

Martius veio com outro botânico (Johann Baptist von Spix) e ficou no Brasil até 1820, ambos fizeram diversas expedições pelo Brasil. Suas pesquisas renderam duas grandes obras: Reisen in Brasilien (Viagem pelo Brasil, em 3 volumes), que retrata, além da fauna e flora, paisagens, o cotidiano do país e da viagem. O segundo livro, Flora Brasiliensis (Flora Brasileira) [82], com 40 volumes, planejava documentar e sistematizar todas as espécies de plantas brasileiras, além de seu uso. Foi terminado postumamente, 66 anos depois, com a descrição de mais 22 mil espécies de plantas. Mais detalhes sobre este glorioso passado brasileiro, nas referências [82][83][84]. Atualmente, há um trabalho de classificação da flora do Brasil até 2020, com o projeto Reflora [85].

Árvores como as que Martius viu e desenhou no século XIX são praticamente inexistentes no Brasil dos dias de hoje, com exceção, talvez, das regiões mais isoladas da Amazônia. Sobraram, espalhados pelos estados, uns poucos exemplares, geralmente porque tinham algum defeito e não eram “aproveitáveis” pelos madeireiros, ou devido a alguns proprietários mais conscientes e teimosos, desde aqueles tempos.

E mesmo essas árvores remanescentes poderão morrer também, se nos locais de visitação não fizerem algo para protegê-las do pisoteio constante, como aquele estrado construído para cuidar do pinheiro de Canela.

Nas cidades, nenhuma grande árvore sobrou para contar a história, todas foram derrubadas para dar lugar às construções. É essa briga por um pedaço de terra que transformou num inferno a vida das árvores urbanas. Plantas que poderiam ter 200, mil anos ou mais, não passam dos 20 ou 30, devido a constantes maus tratos, doenças e mutilações.

Porque, o que deve ficar bem claro é que toda e qualquer poda é uma mutilação da árvore, mesmo que seja feita de forma adequada. É como se cortássemos o braço de uma criança. Aquele trecho cortado não cresce novamente (rever fig. 56), só aparecem diversos brotos laterais, muito mais fracos, pois a alimentação e sustentação deles provém do anel mais externo (o alburno mais recente, onde é produzida a madeira nova). Esse comportamento de rebrote é idêntico nas raízes podadas (rever fig. 43).

Na primeira vez que podei o ligustro – assunto central deste artigo, lembra? – ele ficou estacionado alguns anos, até voltar a crescer e florir. Pareceu que tinha levado um choque (e deve ter sido isso mesmo).

Acontece que na época, cortei de qualquer jeito, como se faz muito no Brasil: sem técnica e sem respeitar os ciclos da planta. Na verdade, as únicas coisas certas que fiz foram os cortes limpos, sem lascas e as pinturas de proteção.

Fig. 67 - Sequência de um corte limpo, até a colocação do hidroasfalto.

Fig. 67 – Sequência de um corte limpo, até a colocação do hidroasfalto.

Depois, comprei um antigo livro, cujas informações seguem atuais (“A Poda das Plantas Frutíferas”, de Júlio Seabra Inglês de Sousa, Ed. Nobel), além de consultar outros na biblioteca da universidade local. Agora, cuido as datas pelo calendário agrícola (que segue o ciclo lunar, conheça o de 2018 AQUI), para evitar danos maiores (fig. 67). Até a remoção, obtive bons resultados, pois o ligustro passou a responder a cada poda com maior vigor.

Essa capacidade de resposta ficou explicada quando cortamos o tronco: todo ele estava vivo, era inteiramente alburno, não havia cerne, portanto a seiva bruta podia alimentar qualquer ramo ou broto da planta. Creio que isso tenha acontecido por causa da proteção que fiz em todos os cortes, já que o ligustro não precisou gastar energia para combater doenças e apodrecimentos no caule. Também pode ser uma característica própria da planta, que a faz tão competitiva com outras espécies.

Sempre protegi os cortes com hidroasfalto (Bonasoldi, Igol, Isol, Proder, Rodopren, Veda Herr, Vedakron, Vedapren, Viapol, etc.). Nada mais é do que piche diluído em água – não me pergunte como -, bastante elástico após a secagem, que faz excelente proteção contra fungos e insetos.

Como o hidroasfalto geralmente tem a cor preta, pode enfeiar as árvores, apesar de protegê-las. Pode-se pintar por cima uma camada de tinta acrílica ou látex PVA, para uso externo, na cor mais parecida com a da casca. Se houver possibilidade de adquirir aquelas tintas de fachada, emborrachadas ou elásticas, que cobrem trincas ou fissuras, elas poderão ser aplicadas diretamente no ferimento do tronco.

Para qualquer dos produtos acima descritos, talvez seja necessária a reaplicação eventual, nos grandes ferimentos.

Observe que boa parte dos problemas das árvores começam pelas áreas desprotegidas, oriundas do corte ou da quebra de galhos. A exposição ao tempo apodrece o caule, de fora para dentro, levando à infestação com todo tipo de organismos oportunistas.

Árvores doentes, inclusive, é o que mais vemos nas calçadas, devido ao manejo inadequado, sem técnica alguma. Para evitar isso, conheça AQUI um manual de poda de plantas.

As espécies “invasoras” e a coevolução

Meu ligustro nasceu guacho (por si mesmo), num vaso. Deixamos crescer e quando construímos a casa, foi a primeira árvore que plantamos na rua, antes mesmo da calçada. Na época, o caule tinha diâmetro de poucos centímetros (fig. 68).

Fig. 68 - Caule do ligustro, nos primeiros anos de vida. Observe no primeiro quadrante uma cicatriz que foi protegida com hidroasfalto, que depois a planta cobriu totalmente. Os brotos laterais foram removidos e os cortes também receberam hidroasfalto.

Fig. 68 – Caule do ligustro, nos primeiros anos de vida. Observe no primeiro quadrante uma cicatriz que foi protegida com hidroasfalto, que depois a planta cobriu totalmente. Os brotos laterais foram removidos e os cortes também receberam hidroasfalto.

O Ligustro lucidum (alfeneiro) é uma árvore baixa, que cresce rapidamente. É originária da China e forma em 10 anos ou menos, uma copa redonda, fechada, uniforme e muito bonita. Como faz sombra o ano todo e tem pouca altura – até 4 m -, é muito utilizada para embelezar e perfumar as cidades. Atualmente, está em várias listas de espécies invasoras [86][87][88].

Também chamam de plantas invasoras a amoreira, a goiabeira, o maracujá, a uva japonesa, a mangueira, a jaqueira e a nespereira, que são frutíferas muito apreciadas, inclusive pela fauna nativa.

Detalhe: a goiaba e o maracujá são nativas de uma parte do Brasil e estão invadindo o próprio país, já viu que perigo?

É impressionante, árvores nativas passam a ser chamadas de invasoras de uma hora para outra e ninguém se pergunta porque isso não aconteceu antes, se elas já estavam por aí? É evidente que são plantas pioneiras, que adaptam-se às duras condições ambientais, cada vez mais frequentes no país. Essas plantas não são a causa, são a consequência dos ambientes degradados.

A classificação das invasoras, inclusive, tem se tornado cada vez mais específica, porque as plantas podem tornar-se dominantes em determinadas regiões, mas não em outras. E a pressão comercial tende a proteger determinadas espécies com potencial agressor, para evitar prejuízos ao agronegócio.

Assim, uma planta pode ser invasora aqui, mas não ali. E mesmo se for invasora em todos os ambientes, mas der lucro, será aceitável a convivência, estará tudo bem…

Em algumas listas, nota-se também uma alteração das origens de espécies nativas do Brasil, que agora são classificadas como exóticas. É o caso do jacarandá, que tem 32 espécies endêmicas de nosso país, das 36 existentes. O mesmo ocorre com a goiabeira. Nessa toada, daqui a pouco dirão que o maracujá, a mandioca, o açaí e o cacau são exóticos…

Todas as espécies consideradas invasoras foram introduzidas devido ao seu benefício, seja alimentar, ornamental ou por elaborar subprodutos que servem de matéria-prima (madeira, extratos, resinas, grãos, fibras, biomassa, etc.). É óbvio que as pessoas e os animais continuarão a fazer isso.

A uva japonesa, originária da China, tem uma madeira resistente, bela e ornamental, de cor amarelada e com veios bem visíveis. É considerada invasora, mas seu desenvolvimento diminui muito quando o solo tem gramíneas. Os frutos, quando secos e moídos, podem substituir o açúcar mascavo de tão doces e as folhas são excelentes forrageiras.

Outra que está na lista é a mexicana leucena, parente da nossa bracatinga, ambas de rápido desenvolvimento, altíssimo poder calorífico e cuja madeira pode ser usada para fazer móveis ou carvão. As folhas e vagens da leucena, inclusive, são comestíveis. Ela também serve como adubação verde para o milho orgânico, aumentando a produtividade em mais de 300% [89].

E a lista segue, por exemplo com a Moringa oleífera, originária da Índia, uma árvore que é inteiramente aproveitável. As flores, folhas, vagens e raízes servem para consumo humano e animal. O pó de partes da planta pode ser um suplemento alimentar ou um purificador de água (substitui o sulfato de alumínio, bem mais caro, para decantar impurezas). A Moringa o. é resistente à seca e pode ser cultivada em regiões semiáridas. Além de tudo isso, fornece um óleo comestível e de alto ponto de fusão, que serve também como lubrificante para mecânica fina (como as pequenas engrenagens dos relógios ou os modernos instrumentos miniaturizados).

A uva japonesa, a leucena, a bracatinga e a moringa são melíferas (atraem as abelhas, pois produzem muito néctar, o que viabiliza a produção de mel).

Uma planta invasora é aquela que reproduz-se facilmente, não tem predadores e impede que outras cresçam por perto. Não concordo com esse conceito de “espécies invasoras”, pois todos os organismos vivos estão em constante evolução.

Classificar um ou outro vegetal como se fosse “mau” para o ambiente é uma forma muito limitada de enxergar todo o potencial das plantas, além de desviar o foco sobre o que realmente está acontecendo. Disfarçado de ajuda, na verdade o objetivo é lutar contra a Natureza (o ambiente natural). Como se nós fôssemos os certos e tivéssemos o que ensinar, em vez de cooperar e aprender com ela!

Se deixarmos uma planta em um ambiente inóspito, ela tentará naturalmente adaptar-se a ele, ou morrerá. Do mesmo modo, outra espécie acostumada a lutar bravamente, por algum tempo poderá tornar-se dominante, em um ambiente promissor. Mas isso não significa que a vegetação restante esteja passiva, muito pelo contrário.

Esquecem de um conceito básico da Natureza, que presenciamos a todo momento: a coevolução. Há vários exemplos, os mais evidentes são as interações entre o reino vegetal e animal, porque ocorrem de um jeito mais visível e rápido.

Na agricultura a situação é bem conhecida: por algum tempo, determinada espécie de inseto morre por causa de um veneno, mas depois ele desenvolve uma “resistência” ao produto, que terá que ser “melhorado”, ou não fará mais efeito. Ocorre o mesmo com as plantas consideradas “ervas daninhas” ou com as baratas de nossas residências.

Em boa medida, o dilema praga-veneno tem origem na mania da limpeza absoluta e no desenvolvimento das plantas em ambientes controlados, nos quais elas ficam isoladas das interações que ocorrem naturalmente na terra. É a forma de estudar separadamente cada aspecto, mas que dificulta a compreensão plena da Natureza.

Dessa maneira, reduz-se a variedade genética das espécies e a sua resistência geral. Por isso é que as plantas precisam, cada vez mais, de insumos para vingarem, pois são sensíveis a qualquer agente agressor, seja animal ou vegetal.

Esse hábito de usar venenos (agrotóxicos, agroquímicos ou “defensivos”) para combater as espécies de insetos, plantas e doenças, fez aumentar as tais “pragas”, que eram aproximadamente uma centena em 1950 e hoje são mais de 700, segundo Carlos Gabaglia Penna [90].

Desprezam a coevolução. É a mesma coisa na guerra entre as bactérias e antibióticos. TODA A NATUREZA FUNCIONA ASSIM, inclusive nós, humanos. O termo biológico que define esse comportamento é corrida armamentista, pois não termina nunca.

Como essa corrida armamentista ocorre lentamente, os seres humanos, pela capacidade de transporte que possuem, podem disseminar mais rapidamente as espécies, este talvez seja o maior problema.

O impacto inicial poderá ser grande, mas, cedo ou tarde – estou falando de décadas -, o conjunto da fauna e flora desenvolverá mecanismos para adaptar-se e sobreviver à concorrência. É só confiar e deixar o ciclo natural seguir seu caminho. Se a Criação deu certo por milhares de anos – pois sempre soube adaptar-se a qualquer evento ou cataclismo – porque seria diferente, de agora em diante?

Haverá algum nível de extinção, outro de adaptação e outro tanto de miscigenação, mas isso, por si só, é tão ruim assim? Devido às possibilidades de cruzamentos e de novas fontes de alimentos, a diversidade poderá aumentar, em vez de diminuir. Porque a fartura de comida é bom para todos!

Muitas das tais plantas invasoras disseminam-se não só por suas próprias capacidades, mas também porque são espalhadas pelos animais, quando são alimentados, ou de alguma outra forma beneficiados por elas. E isso traz novas interações, que podem ser benéficas ao ambiente, enriquecendo-o. Além disso, a disseminação de sementes através dos animais pode estar mascarando o real potencial agressivo das plantas. Cito um caso simples.

Em casa, em determinadas épocas, diariamente deparo com sementes soltas pela calçada, de espécies inexistentes nas redondezas e que não cultivo – e também consideradas invasoras -, como a canela (Cinnamomun verum) e a aroeira mansa (Schinus terebinthifolia). Ninguém entra no pátio, a não ser aves, morcegos e outros animais noturnos. Não ocorreram episódios de vento forte. Vai ver, as sementes caem do céu, ou pulam para fora da terra, inexplicavelmente.

Estuda-se demais os aspectos da concorrência entre as espécies, mas muito pouco a ajuda mútua, que é outra forma de coevolução, no estilo ganha-ganha.

Propaga-se incansavelmente a ideia da sobrevivência do mais apto (no sentido daquele que é mais robusto e forte), sendo que até Charles Darwin, autor do termo, já acusava o exagero dessa atitude [91].

O príncipe russo Piotr Kropotkin [91], em 1902, contemporâneo de Darwin, chamava atenção para a existência da ajuda mútua entre os bichos ou entre humanos, desde tempos remotos, fossem selvagens ou não. No excelente livro “Ajuda Mútua: um fator de evolução” (Baixe DAQUI), ele considera que, em tempos de escassez:

“… nenhuma evolução progressiva da espécie pode se basear nesses períodos de competição feroz.”

Um exemplo brilhante de ajuda mútua, muito usado até o século passado, antes do advento dos antibióticos (meados de 1930) e que voltou a ser objeto de intensa pesquisa, devido ao problema das superbactérias, é o uso de larvas de mosca para curar feridas.

Esse tratamento (Terapia Larval ou Larval Therapy ou Maggot Therapy), apesar de parecer nojento, é barato, rápido e eficiente: as larvas só comem o tecido necrosado, extinguem o mau cheiro, ao mesmo tempo em que liberam substâncias que auxiliam na cicatrização. Isso tem evitado a amputação de membros, especialmente para aquelas pessoas que sofrem de “pé diabético” (feridas nos membros inferiores, que não cicatrizam e que causam 70% das amputações no Brasil) [92][93][94].

Presenciamos a ajuda mútua em todo lugar, seja entre a fauna e flora, entre as pessoas mais humildes ou entre animais, como aves, gatos e cachorros. Quando há fartura de comida e abrigo, as agressões diminuem ainda mais, pois tem para todos, não há porque competir e a reprodução de todos os animais aumenta.

E mesmo quando ocorre disputa, ela é curta, geralmente evita-se o confronto, através da fuga (fig. 69) . Os mais aptos, nesse caso, são os que sabem preservar seu corpo físico, burlando a agressão direta e os possíveis ferimentos.

Fig. 69 - 8 pássaros, aguardando sua vez para tomar banho ou comer restos de frutas espalhadas pelo chão. São 5 espécies diferentes, ajudando-se mutuamente (o alerta de um deles faz com que todos levantem voo).

Fig. 69 – 8 pássaros, aguardando sua vez para tomar banho ou comer restos de frutas espalhadas pelo chão. São 5 espécies diferentes, ajudando-se mutuamente (o alerta de um deles faz com que todos levantem voo).

Koprotkin critica fortemente aquele conceito amplamente difundido, tido como a única “lei da vida”: a luta de todos contra todos, ou Lei da Competição Mútua. Para obter os meios de subsistência, aceita-se que existe uma guerra de todo animal contra seus semelhantes e de cada ser humano contra todos os outros. Esse é o bordão daqueles que defendem e incentivam, por exemplo, o gasto militar, que, afinal, usa dinheiro para matar gente considerada inferior ou inimiga, em vez de levar educação e infraestrutura.

O autor prova que contribui muito mais para a evolução progressiva de todas as espécies a Lei da Ajuda Mútua. Sua obra contribui para a compreensão daquilo que hoje conhecemos como civilização, pois ele demonstra cabalmente que chegamos aonde chegamos pela colaboração de todos com todos, não pelas guerras.

Foram as legiões de trabalhadores, invisíveis e pacíficos, que continuaram laborando, ajudando-se mutuamente e produzindo alimentos, que garantiram a comida daqueles que dedicavam-se às lutas. Ele ilustra a Lei da Ajuda Mútua com diversos exemplos, tanto da vida dos animais quanto dos humanos. Há, inclusive, no livro, muitos casos tirados dos povos nativos do continente sul-americano.

Outro aspecto que corrobora de maneira inquestionável a Lei da Ajuda Mútua e que também esquecem de falar, quando abordam a biodiversidade, é a comunicação pelos semioquímicos, substâncias produzidas por plantas, fungos e animais, que carregam uma mensagem. Nos animais, geralmente utiliza-se o termo feromônio.

Compostos voláteis como o perfume das flores, o cio das fêmeas nas épocas de acasalamento e as toxinas das plantas, são alguns semioquímicos, há uma infinidade deles, sobre e sob a terra. Vá para qualquer bosque ou jardim e respire profundamente. Os cheiros que você sentir serão os semioquímicos mais evidentes e perceptíveis pelos humanos, naquele momento e naquele lugar. Em diversos países, o estudo dos semioquímicos está em franco desenvolvimento, pois é um campo imenso para pesquisas, que ajuda a compreender a imensa complexidade (e colaboração) da Natureza, consulte as referências [95] a [103].

Atualmente, há uma grande preocupação com a poluição ambiental e com o excesso de ozônio na atmosfera, que estão interferindo nisso, ou seja, estão embaralhando as palavras de comunicação dos semioquímicos, tornando-as ininteligíveis aos receptores [99].

Imagine uma planta perder a capacidade de atrair seus polinizadores. Isso pode estar relacionado, por exemplo, com a morte de milhares de enxames de abelhas, nos últimos anos, por todo o planeta.

O limoneno, um semioquímico com cheiro de laranja, presente em muitas plantas, é degradado quando interage com o ozônio gasoso, transformando-se em aldeído, não sendo mais reconhecido por plantas e insetos.

Outros semioquímicos, que antes viajavam dezenas ou centenas de quilômetros, hoje não passam de algumas centenas de metros, devido à degradação com o óxido de nitrogênio e outros gases, emitidos pelos escapamentos. Lembro que os cravos, antigamente, tinham perfume muito mais intenso e inebriante, hoje temos cheirar as flores bem de perto, para senti-las. Estas são algumas das consequências da falta de responsabilidade daqueles que detêm o poder e as condições de orientar grandes mudanças.

As plantas abusam dos semiquímicos, é a forma pela qual agem e se comunicam, pois não podem sair do lugar. Usa-se o termo alelopatia, que significa o organismo interferir bioquimicamente, direta ou indiretamente, no crescimento, sobrevivência ou na reprodução de outros organismos. Na alelopatia, as plantas, algas, bactérias e fungos são classificadas em 2 tipos: companheiras ou antagônicas. No entanto, é mais do que isso.

O milho, por exemplo, assim que é atacado por lagartas, libera no ar uma substância que atrai as vespas, predadoras daquelas [100]. Este semioquímico é disparado somente pela saliva da lagarta e serve para que outras plantas no entorno entrem em alerta e produzam suas defesas, formando uma rede de proteção.

Os tomateiros chegam a provocar canibalismo entre as lagartas [101] e o tabaco gera uma substância que também atrai predadores de lagartas [102].

Ao ser agredida, uma só abelha que dê o alerta – exale um semioquímico (feromônio) – é suficiente para que todo o enxame entre em polvorosa e parta para cima do agressor. Dependendo da agressividade da espécie, apenas algumas atenderão ao chamado, ou virão em numeroso bando. Por isso, nunca espante ou bata em vespas ou abelhas, apenas contemple-as, pois elas JAMAIS AGRIDEM DE GRAÇA, como nós, humanos.

O voo das abelhas é barulhento, mas inofensivo. Lembre-se que são operárias e estão trabalhando (coletando pólen, néctar e até o açúcar do seu copo de refrigerante). Se o zumbido for mais forte e estiverem dando rasantes rápidos, perto das pessoas, chegando a bater, é sinal de irritação das abelhas, afaste-se rapidamente do local, sem correr e, principalmente, SEM SE DEBATER. No entanto, se uma só delas lhe picou, procure abrigo urgentemente, de preferência a favor do vento, em lugar fechado (como um carro). As picadas costumam ser mais frequentes perto da colmeia e muito raras longe dela. Dependendo da irritabilidade do enxame, há abelhas que atacam, como forma de aviso, os que aproximam-se da colmeia. Afastando-se do local, tudo volta ao normal. Obviamente, nunca deve-se bater numa colmeia nem ficar na entrada dela, atrapalhando os voos. Não mexa com quem está quieto.

Em caso de picadas de abelhas é importante, tão rápido quanto possível, retirar o ferrão da pele, de baixo para cima e sem apertar a bolsa de veneno. A abelha solta o ferrão no local da picada e morre, devido à hemorragia e perda de órgãos. É necessário retirar o ferrão porque ele tem um músculo autônomo, que continua injetando veneno no alvo, em espasmos, por alguns minutos.

Em épocas de enxameamento – quando as colmeias procuram um novo lugar para morar – as operárias ficam inofensivas, pois sua função naquele momento é proteger a rainha. Apesar do barulho daquela imensa nuvem, formada só por abelhas, ser apavorante para alguns (e maravilhoso para outros), não há porque temer. Caso elas encontrem um lugar para ficar no telhado de sua casa, por exemplo, entre em contato com a associação local de apicultores, para cuidar de sua transferência. Ou, na falta deles, chame os bombeiros. Não agrida-as, repito, elas não farão nada contra ninguém, se forem deixadas quietas. Assista o que ocorre quando você disponibiliza um pouco de alimento a elas:

Abelhas junto à flor Erica (Cuphea gracilis), um dia após a colocação de pote de mel vazio, para que elas levassem os restos. Em três dias, o vidro ficou completamente limpo.  É o perfeito exemplo de reciclagem.

Voltando aos semioquímicos, o melhor ocorre quando os humanos compreendem estes sinais alelopáticos e os empregam em seu benefício, de forma natural. No Quênia, que tem muita dificuldade para cultivar milho, devido à pobreza da população, ao alto custo dos insumos e à necessidade de melhorar a terra, eles encontraram uma solução barata para controlar espécies danosas ao cultivo – as “pragas” -, que podem, muitas vezes, levar à perda total da safra.

O capim-napiê é plantado ao lado do milharal (fig. 70), para atrair uma mosquinha e evitar que ela deposite seus ovos nas folhas do milho. Ao eclodirem os ovos, as lagartas da mosquinha ficam presas numa goma produzida pela folha do capim e morrem. Junto das raízes do milho, atacadas fortemente pela erva estriga, os agricultores quenianos plantam outra erva, o desmodio, que além de acabar com a estriga e não prejudicar o milho, tem um cheiro que espanta as moscas, levando-as para o capim-napiê. O desmodio é, provavelmente, um parente do nosso pega-pega (desmodium incanum), excelente planta forrageira, também conhecida como mata-pasto e amor-do-campo.

Fig. 70 - Plantação de milho no Quênia, sem o uso de qualquer agroquímico, mais informações no texto. Fonte: ASN – André Sarria [103].

Fig. 70 – Plantação de milho no Quênia, sem o uso de qualquer agroquímico, mais informações no texto. Fonte: ASN – André Sarria [103].

Essa técnica, chamada de push-pull – empurra-puxa [103], uma referência ao efeito de plantas que repelem e outras que atraem as pragas -, é um exemplo de agricultura totalmente natural e que não usa um pingo de agroquímico. Só tornou-se possível devido a uma tradição africana: a atenta e demorada observação da Natureza.

Observe que o milho é exótico na África, portanto esse procedimento de cultivo foi desenvolvido há relativamente pouco tempo. A tradição agrícola ainda resiste nessas regiões mais pobres, pois está em jogo a sobrevivência.

Lembrando: o capim-napiê ou capim-napier ou capim-elefante (Pennisetum purpureum), uma gramínea forrageira, está classificado como espécie invasora aqui no Brasil. E é muito utilizado por produtores agrícolas como alternativa de alimentação para o gado, mais barata que o milho. Até a Embrapa desenvolveu cultivares desse capim, com maior teor de proteína [104].

Em outro artigo, a Embrapa [89] demonstra que, dependendo do lugar, do solo e das necessidades da planta, o cultivo orgânico do milho costuma ser associado a outras espécies, tanto para a rotação como para adubação verde: leucena, mucuna-preta, crotalária, guandu, caupi, feijão, dentre outras.

Cada planta tem suas espécies antagônicas ou companheiras, este conhecimento deve ser ampliado, difundido e praticado, pois os consórcios de várias plantas, fungos e animais no mesmo local trazem benefícios, como a manutenção da umidade e a melhoria da terra (pela fixação de nitrogênio e redução da erosão, por exemplo). A diversidade de espécies, só ajuda esse tipo de pesquisa.

O uso da tecnologia, aliada a técnicas de produção agrícola como a do Quênia, poderá ser determinante para alimentar o planeta num futuro próximo, onde os venenos necessariamente terão que ser banidos ou severamente limitados, para todos termos o suficiente para comer, sem cairmos doentes.

Os robôs é que farão essa transição, porque qualquer tarefa repetitiva pode ser delegada às máquinas. Imagine pequenos autômatos nas lavouras, partilhando informações, manejando em conjunto, tendo capacidade para identificar e controlar o crescimento de cada planta, individualmente.

O uso de robôs também minimiza os efeitos do êxodo rural, que ocorre em todo o mundo e está fazendo a população rural envelhecer, pela falta de renovação. As máquinas agrícolas liberam as pessoas para atividades de planejamento, além de aumentar a necessidade de qualificação no campo, devido aos imprescindíveis serviços de operação e manutenção, que poderão servir de atrativo aos jovens.

O uso de venenos poderá ser praticamente eliminado, mas ainda é necessário baixar o preço dos robôs a níveis aceitáveis. Pela quantidade de empresas e institutos de pesquisa devotados à área, isso deve ocorrer em menos de 10 anos (estamos em 2018).

Aparentemente, os robôs ainda precisam de terreno bem plano e uniforme, este é só mais um dos inúmeros desafios que ainda precisam ser enfrentados. Apesar de muita experimentação, já é possível encontrar equipamentos autônomos para agricultura, como o capinador BoniRob da Bosch/Deepfield Robots [105], que mediante acessórios pode trabalhar em diversas funções (fig. 71).

Fig. 71 – Robô autônomo BoniRob, da Bosch/Deepfield Robotics. Fonte: 4erevolution [105].

Fig. 71 – Robô autônomo BoniRob, da Bosch/Deepfield Robotics. Fonte: 4erevolution [105].

Fig. 72 – Robô autônomo Xaver, da Fendt. Fonte: AGCO/Fendt [106].

Fig. 72 – Robô autônomo Xaver, da Fendt. Fonte: AGCO/Fendt [106].

Fig. 73 – Robôs autônomos Xaver em ação. Fonte: AGCO/Fendt [106].

Fig. 73 – Robôs autônomos Xaver em ação. Fonte: AGCO/Fendt [106].

Fig. 74 – Robô autônomo para funções de corte, da VitiRover. Fonte: VitiRover [107].

Fig. 74 – Robô autônomo para funções de corte, da VitiRover. Fonte: VitiRover [107].

Para o trabalho em bando (coordenado) a AGCO/Fendt [106] oferece a linha de robôs autônomos Xaver, fruto da colaboração com a Universidade de Ulm e condicionado ao projeto da União Europeia (Echord++ – The European Coordination Hub for Open Robotics Development) [108], que proporciona um ambiente de parceria entre universidades, institutos de pesquisa, usuários e pequenos e médios fabricantes, com vistas ao desenvolvimento de robôs, para tarefas como a agricultura de precisão. O programa oferece financiamento com risco zero aos consórcios de pesquisa, para desenvolver tecnologia robótica para casos reais de uso e já conta com mais de 100 projetos de parcerias.

Os robôs da Fendt podem trabalhar em conjunto de centenas de unidades, no regime 24/7 (vinte e quatro horas por dia, 7 dias por semana), meia dúzia deles, por exemplo, cobre 1 hectare por hora (figs. 72 e 73). Se um robô falhar, os outros corrigem suas rotas, para assumir as funções daquele. É possível semear cultivos diferentes, já que cada robô leva as suas sementes.

A VitiRover [107] fabrica um robô autônomo para corte de grama, recarregado por baterias solares (fig. 74). A empresa destaca o uso de “rebanhos de robôs” para substituir o glifosato, um secante utilizado para o controle do capim, que está sob suspeita de ser cancerígeno.

A Octopus [109] disponibiliza um robô autônomo para diversos fins (fig. 75). Em grandes estufas, shoppings e aeroportos, pode funcionar como equipamento de descontaminação. Nos aviários, revira o solo para evitar a fermentação do esterco e estimula as aves a movimentarem-se, prevenindo lesões.

Fig. 75 – Robô autônomo multiuso, da Octopus. Fonte: Octopus [109].

Fig. 75 – Robô autônomo multiuso, da Octopus. Fonte: Octopus [109].

Fig. 76 – Robô colhedor de morangos, da Octinion. Fonte: Octinion [110].

Fig. 76 – Robô colhedor de morangos, da Octinion. Fonte: Octinion [110].

Fig. 78 – Tratores em trabalho coordenado, da Yanmar. Fonte: Yanmar [112].

Fig. 78 – Tratores em trabalho coordenado, da Yanmar. Fonte: Yanmar [112].

Outro interessante robô autônomo é o colhedor de morangos da Octinion [110], que seleciona os mais maduros, colhe e os coloca na embalagem final (fig. 76). Este robô consegue identificar um morango a cada 3 segundos e pode ser programado para colher tamanho e qualidade específicos. Ele só escolhe a fruta se conseguir pegá-la sem danos. Há robôs maiores para o mesmo serviço, como o colhedor de morangos da Agrobot [111], com múltiplos braços e que solta o morango no engradado, para posterior embalamento (fig. 77).

A página da Agriexpo [112] exibe uma seleção de robôs movimentadores, colhedores, cortadores, limpadores, multiuso, etc.. São diversas marcas, além das já citadas: Agrobot, Agrointelli, Antago, Carré, Dot, Ecorobotix, Energreen, Harvest Automation, Mirô, Octopus Robots, Saga Robotics, Tekno-Ants, Tibot, VitiBot.

A página russa RoboTrends [113] mostra outro extenso apanhado de robôs para agricultura, com as marcas Abudant Robotics, Adigo, Advesta, Autonomous Solutions (ASI), Autonomous Tractor Corporation, Avrora Robotics, Blue River, Clearpath Robotics, CNH Industrial NV, Emerging Technology, Farm View, FFRobotics, Flier Systems, HortiBot, Kubota Corp., Ladybird, Naïo Technologies, Precision Makers, dentre outras.

Desde os anos 1990 a Yanmar [114][115] pesquisa os equipamentos autônomos e começa a oferecer algumas opções, como os tratores coordenados, que trabalham sozinhos, mas ainda tem lugar para o piloto humano (fig. 78).

Todas as referências acima citadas disponibilizam interessantes vídeos sobre seus equipamentos.

Voltando ao tema das plantas invasoras, o problema é que colocam a biodiversidade como uma fotografia, que deve ficar eternamente com a mesma aparência [116]. Tudo bem se o retrato fosse fiel, mas mesmo depois de séculos estudando, ainda não conseguiram catalogar todas as espécies de plantas e animais… Na Amazônia, dia sim, dia não, descobrem uma nova espécie [117]. Será que, algum dia, poderão afirmar que está tudo definitivamente conhecido? Ou pensam que daqui a 10, 20 ou 50 anos, o ambiente será exatamente o mesmo? Tudo muda o tempo todo, porque parar no tempo?

Sem falar que a ocorrência de espécies exóticas geralmente não extingue as concorrentes nativas, apenas diminui sua quantidade [118]. Isso pode ser intensificado num primeiro momento, pela mudança de hábito dos polinizadores, que passam a alimentar-se de outras plantas. E que rapidamente poderá reverter em efeito benéfico à flora nativa, justamente pelo aumento da população de polinizadores e o consequente aumento da especialização.

Olha-se sempre pelo lado da falta, da doença, da escassez, da dificuldade, nunca pelo lado da generosidade, do vigor, do altruísmo, da abundância. Quanto mais espécies conviverem num mesmo espaço, mais intensas e vigorosas serão as trocas entre as plantas, fungos e animais e maior será a diversidade. A Natureza sempre agiu assim. Num ambiente tão rico e harmonioso de vida, não há como uma ou outra espécie tomar conta, pois a diversidade de espécies implica diretamente em grande variedade de técnicas de alimentação/propagação/reprodução/camuflagem, e nenhum ser vivo é bom em tudo.

No final das contas, continuam querendo dominar, domar a Natureza, não querem aprender com ela. Nós, humanos, sempre procuramos o modo mais fácil para fazer qualquer coisa, porque impedir que a vida ao nosso redor, que a Natureza comporte-se assim também?

Tudo no planeta está em constante mutação, falta é confiança no ciclo da vida. Preocupar-se demasiadamente com a biodiversidade equivale a procurar erros que não podem ser corrigidos e deixar de ver as vantagens e os benefícios das outras interações.

Não digo que as espécies exóticas são inofensivas, nada disso. Ocorre é que o dano ambiental deveria ser combatido na origem, porque depois que o estrago está feito, não tem como voltar atrás.

Prejudiciais mesmo são as ações graúdas, essas causam colossal desequilíbrio. O desmatamento, por exemplo, para posterior plantio de espécies exóticas – como são a maior parte das monoculturas – é de longe o que arrebenta com o ambiente nativo.

Em florestas mais ralas, como na região do Cerrado, é comum desmatar com duas retroescavadeiras, unidas por uma grossa corrente (link), que leva de arrasto tudo o que estiver pela frente. Depois, outra máquina retira as raízes, para então poder plantar pasto para o gado, geralmente alguma espécie exótica de gramínea.

Importaram sementes, sem dar bola para qualquer estudo técnico e impuseram o plantio, como foi com as espécies de braquiária, uma grama que só serve para alimentar o gado (o cavalo não a come) e que desde a década de 1980 avança sobre os campos brasileiros. Falam até em extinção do Cerrado, mas culpam as plantas invasoras e não aqueles que ainda as cultivam.

Apesar disso, foram as braquiárias, o capim-gordura, o capim-elefante e o milheto, todos vindos da África, que potencializaram o crescimento da pecuária brasileira. De quebra, alimentam uma infinidade de outros animais, que movimentam toda uma cadeia alimentar subsequente. Em que medida isso é bom, ou ruim?

Igualmente ocorreu com as abelhas. As espécies comumente usadas para produzir mel, em qualquer país do continente americano, são europeias e africanas e os primeiros enxames foram trazidos para cá em 1839 e 1956, respectivamente. Devido ao ambiente favorável e à necessidade de ficarem soltas para poder “trabalhar”, ocorreram cruzamentos, que resultaram em diversas variedades de Apis e que tornaram o Brasil um importante produtor de mel (chegamos ao quarto lugar mundial em 2009).

Como o conhecimento tecnológico sobre as abelhas locais era escasso ou desdenhado, trouxeram as estrangeiras. Pouco se fala do que sucedeu com as abelhas nativas sem ferrão (Melíponas), como a irapuã, jataí, mandaçaia, mirim, tubuna, uruçu, etc., são mais de 300 espécies, algumas delas excelentes produtoras de mel.

Há risco de extinção para diversas Melíponas, mas é devido ao desmatamento, não à concorrência com as Apis. Recentemente, descobriu-se que a abelha mandaguari e também outras espécies sem ferrão, cultivam seu próprio fungo, para usá-lo como alimento, do mesmo modo que as formigas [119]. É o mesmo fungo utilizado por asiáticos como corante, para conservar alimentos. Imagine as possibilidades futuras, ao preservarmos essas abelhas.

Aliás, ainda hoje não é possível vender comercialmente o mel de abelhas nativas brasileiras, porque ele contém naturalmente mais umidade que o mel considerado “correto” e “padrão”…

Falam também dos pardais, trazidos pelos portugueses, que disseminaram-se pelo Brasil, concorrendo com o tico-tico. Colocar a culpa nos pardais pela população reduzida de tico-tico é não enxergar o estrago que faz o chupim, um pássaro oportunista, que põe seus ovos nos ninhos do tico-tico e o filhote, ao nascer, empurra os outros para estatelarem-se no chão. Depois, os “pais adotivos” têm que ficar alimentando um marmanjo, maior que eles (fig. 79). Em meu pátio, continuo enxergando tico-ticos, pardais e chupins. E lá vão 500 e tantos anos da introdução do pardal. Nem ele, nem o chupim, dizimaram o tico-tico.

Fig. 79 - Tico-tico alimentando um chupim “adotado”.

Fig. 79 – Tico-tico alimentando um chupim “adotado”.

Outro aspecto da redução da biodiversidade são as monoculturas, extensas áreas com uma só espécie de planta. Tem gente que acha bonito, até dizem que é pop…

Essas lavouras podem ser práticas para as grandes máquinas, mas estão sujeitas também a grandes prejuízos, pois se a espécie é uma só, as fragilidades de todo o cultivo são as mesmas. Ou seja, as monoculturas têm um enorme Calcanhar de Aquiles (fragilidade importante ou ponto único de falha).

Como aconteceu, por exemplo, com o cacau, espécie nativa da Bacia Amazônica, cujas culturas no país foram praticamente dizimadas pelo fungo vassoura-de-bruxa, no começo dos anos 1990. O Brasil (Bahia, particularmente) era o segundo maior exportador de cacau, atualmente é importador.

Naquela época, tinha um agricultor alemão, que morava na Bahia havia algumas décadas e que produzia cacau de várias espécies. Nas suas terras não houve estragos importantes devido à vassoura-de-bruxa, porque ele manteve a diversidade de cacaueiros, plantados em meio à mata nativa (recuperada). No auge da crise do cacau, vi uma entrevista com ele, no Repórter Eco da TV Cultura de São Paulo, mas, infelizmente, não lembro de seu nome.

Atualmente, a vassoura-de-bruxa ainda causa estragos, não conseguiram desenvolver um produto químico totalmente eficiente contra ela. Pesquisa-se naquela região as plantas que resistem e continuam a crescer, apesar do fungo, para descobrir que tipo de resistência natural seria possível utilizar. Estamos, aos poucos, redescobrindo o cacau, planta genuinamente brasileira, mas agora, com maior respeito ecológico. Mais informações sobre o cacau nas referências [120] a [127].

É interessante como as especiarias, antes corriqueiras e amplamente comercializadas, tendem a ter sua produção reduzida e feita longe do país de origem. Essa limitação na produção aumenta o preço do produto e o elitiza, abrindo espaço para as imitações, como é o caso da baunilha (originária de uma orquídea mexicana) e do cacau.

Lembre-se, um biscoito com “sabor idêntico ao natural” ou com uma cobertura “sabor chocolate”, está usando substâncias sintéticas, que imitam o gosto das verdadeiras, cada vez mais longe dos pobres. Alegam que são inofensivos, mas a que ponto? Essas substâncias não poderiam ser classificadas como invasoras de nossa mesa? E essas moléculas artificiais, serão inofensivas quando despejadas no ambiente?

Preservação ambiental nas cidades

O plantio de espécies exóticas nas cidades, vai afetar qual equilíbrio ecológico? Já está tudo detonado mesmo, qual o município brasileiro que pode se dizer exemplo de arborização, só com espécies nativas?

Nas ruas, volta e meia damos de cara com álamos, carvalhos, ciprestes, ficus, flamboyants, eucaliptos, ligustros, palmeiras, pinheiros, plátanos, etc.. Foram plantados justamente por sua beleza, resistência, fragrância, frutos ou imponência, não importa de onde vieram. Se estão bem ou mal cuidados, é outra questão.

Fig. 80 - Pinus elliotti crescendo livremente na região de Garopaba, praia de Santa Catarina. Observe os brotos mais novos, à direita, junto do meio-fio, em trecho recentemente escavado.

Fig. 80 – Pinus elliotti crescendo livremente na região de Garopaba, praia de Santa Catarina. Observe os brotos mais novos, à direita, junto do meio-fio, em trecho recentemente escavado.

Nas praias do sul do Brasil, o Pinus elliottii nasce em todo lugar, parece que ninguém dá muita importância, porque essas árvores exóticas, de rápido crescimento, podem ser livremente cortadas e produzem bastante madeira (fig. 80).

E nas calçadas e jardins requintados, onde cada dono faz o que quer, quase sempre são as espécies exóticas as preferidas, por serem mais raras e caras. Não dizem todo o tempo que o que vem de fora é mais chique?

Isso vale inclusive para os gramados, poucos usam espécies nativas, como a grama-amendoim e ainda há a pressão de entidades que defendem abertamente a proibição de plantar gramíneas nativas em áreas urbanas [128], um total disparate.

Infelizmente, todo dia apaga-se aos poucos o que resta das espécies nativas, relegando-as ao esquecimento. Parece pretenderem sumir com ações como as de Burle Marx, que coletou, catalogou e incentivou o uso de plantas nativas no paisagismo brasileiro e que deu uma cara nova aos jardins do mundo. Boa parte de nossa elite, que poderia continuar este legado, não tem orgulho de ser brasileira e preferiu esquecê-lo.

Vamos ser realistas, as cidades e seus arredores estão dominados por espécies exóticas, falar em conservação nesses locais é querer tapar o sol com peneira, pois o benefício ambiental é muito limitado.

Outro problema é que muitas das árvores remanescentes de matas nativas, isoladas pelo crescimento imobiliário das cidades, estão destinadas a adoecer ou cair, pois são muito altas e lhes falta o apoio que tinham da mata ao redor. Com isso, além de ficarem sujeitas aos ventos e raios, os novos galhos tenderão a crescer no lado mais ensolarado, desequilibrando a planta. O impedimento ou a dificuldade para cortá-las (Lei Federal 12.651/12, art. 70, inciso II [129]) pode originar uma preservação deformada, com pouca capacidade de regeneração.

Melhor seria remover tais espécies, após recolher suas sementes por algum tempo, para então plantar mudas novas no lugar, que cresceriam de acordo com o novo ambiente. Isso implica em cuidar desses locais por vários anos, não é só mandar fazer e acabou, aliás, um péssimo e frequente hábito em nosso país.

Fig. 81 - Árvores nativas remanescentes de um lote, altas demais, cujos galhos estão crescendo para fora do terreno, em busca de sol.

Fig. 81 – Árvores nativas remanescentes da mata atlântica, altas demais, cujos galhos estão crescendo para fora do terreno, em busca de sol.

Uma ou outra tentativa pontual de preservação ambiental não mudará esse quadro deprimente, é necessário modificar o uso do espaço urbano e incutir bons hábitos na cabeça das pessoas, através de ações que as alegrem, que as façam sentir parte da cidade.

Projetos de longo prazo, que sejam realmente cumpridos e não dependam do poderoso ou do político da vez, que destinem grandes áreas verdes para tornarem-se praças no futuro, de modo que os novos bairros cresçam em torno delas, são praticamente inexistentes no Brasil. Na verdade, boa parte dos mandatários só empurra com a barriga, evitam de fazer algo que realmente mude este país para melhor, interessa é apenas a aparência de mudança.

As prefeituras autorizam loteamentos em forma de tiras sobre o terreno, onde as obrigatórias áreas verdes dos projetos mais novos não continuam as respectivas áreas verdes dos loteamentos mais antigos. Isso resulta num pipocar de pequenas praças, cuja quantidade as torna praticamente impossíveis de manter, pelas mesmas e combalidas prefeituras. Alguns anos depois, tentam resolver o problema com a venda desses lotes, o que além de ilegal, resulta na eliminação de qualquer possibilidade de preservação ou melhoria ambiental urbana.

Os municípios também permitem que as áreas de encostas e baixadas, próximas de rios e córregos, justamente as mais adequadas para projetos de preservação, sejam loteadas e vendidas aos pobres, que depois, a cada chuva mais forte, sofrerão com os alagamentos. Poderiam ser grandes áreas verdes, interconectadas, que teriam naturalmente a função de esponjas (reservatórios) para as águas pluviais. Mas, a ganância impera e o dinheiro enche os bolsos de uns poucos.

O engodo da preservação ambiental no campo

Na área rural não é diferente, planta-se desde sempre espécies exóticas. As imensas lavouras estão em todo lugar, já aparecem até na Amazônia. É difícil falar na “preservação do habitat natural”, pois em boa parte do país ele não existe há décadas.

Esquecem que até os anos 1970 os agricultores eram sobretaxados, se deixassem mata nativa em suas propriedades? Sim senhor, levavam multa por querer manter o mato, o importante era desmatar e plantar. O mato era sinônimo de atraso – para muita gente, ainda é.

Esquecem que, ainda hoje, o financiamento e o seguro agrícola são extremamente dificultados, caso o agricultor não queira utilizar adubos químicos e venenos? Esta é a verdadeira “consciência ecológica” praticada no país.

Falando em consciência ecológica, quantos no Brasil praticam a Agricultura de Contorno (Contour Farming)? É uma técnica usada em diversas partes do mundo há séculos, para reduzir as perdas de solo devidas à erosão, conservar a água das chuvas e limitar o assoreamento dos rios, consequências da monocultura em larga escala. Esses objetivos são alcançados através de sulcos, linhas de plantio e trilhos de rodas em declives, que atuam como reservatórios e permitem o aumento da infiltração e a distribuição mais uniforme da água.

Mas, ao viajar pelo interior do país, vemos em todo lugar extensas lavouras de linha reta, com plantações de uma só espécie, que são ávidas consumidores de água, fertilizantes e agrotóxicos.

Na agricultura de contorno, cultivam-se diversas espécies em faixas contínuas, que seguem (contornam) o relevo do terreno, o que resulta em maior produtividade, menores custos pela diminuição das perdas de solo, água e adubos, redução do consumo de tempo, energia e desgaste de máquinas, além de deixar a terra com um aspecto bastante agradável. Fazem parte dessa técnica a semeadura de contorno (antiga curva de nível), os terraços, os cordões de contorno, o cultivo em faixa e a rotação de culturas. Quem desejar conhecer melhor tais métodos, consulte as referências [130] a [136] e as figs. 82 a 87.

Fig. 82 – Belíssimo exemplo de agricultura de contorno (Contour Farming), numa vista aérea de Richardson Farmland, Wisconsin, EUA. Fonte: Flickr – por JC Richardson [137].

Fig. 82 – Belíssimo exemplo de agricultura de contorno (Contour Farming), numa vista aérea de Richardson Farmland, Wisconsin, EUA. Fonte: Flickr – por JC Richardson [137].

Fig. 83 – Mais um impressionante exemplo de agricultura de contorno, em local desconhecido. Fonte: Britannica [138].

Fig. 83 – Mais um impressionante exemplo de agricultura de contorno, em local desconhecido. Fonte: Britannica [138].

Fig. 84 – Prática de agricultura de contorno no Condado de Berks, Pensilvânia, EUA. Fonte: Photoshelter [139].

Fig. 84 – Prática de agricultura de contorno no Condado de Berks, Pensilvânia, EUA. Fonte: Photoshelter [139].

Fig. 85 – Vista detalhada de um terreno com agricultura de contorno. Fonte: Fisher and Farmers [135].

Fig. 85 – Vista detalhada de um terreno com agricultura de contorno. Fonte: Fisher and Farmers [135].

Fig. 86 – Prática de agricultura de contorno já em 1930, no Missouri, EUA. Fonte: Wikimedia Commons [140].

Fig. 86 – Prática de agricultura de contorno já em 1930, no Missouri, EUA. Fonte: Wikimedia Commons [140].

Fig. 87 – Vista poética da agricultura de contorno. Fonte: Ardin Rixi – Linas Gianarou [141].

Fig. 87 – Vista poética da agricultura de contorno. Fonte: Ardin Rixi – Linas Gianarou [141].

E a idade das árvores? Aqui na Região Sul, há pouquíssimos lugares com árvores antigas, elas sequer chegam aos 50 anos. Os grandes, centenários e até milenares exemplares já foram abatidos e nem faz tanto tempo assim.

Matas verdadeiramente nativas e preservadas seriam quase impenetráveis de tanto cipó, o sol jamais tocaria o chão, haveria algumas árvores muito grossas e altas, outras com flores exuberantes e seriam locais agradáveis aos olhos, ouvidos e narizes.

Aliás, as flores é que denunciam a existência de diversas espécies nobres, como os ipês (fig. 88), por isso são derrubados frequentemente, já que são facilmente avistados [142] a [146]. Ironicamente, o ipê-amarelo é a árvore símbolo do Brasil…

Você conhece algum lugar de nosso país que tenha uma floresta colorida como a do lago Ashi, em Hokano, Japão? Lá, as cores vêm das folhas no outono. As árvores foram bem escolhidas e localizadas, para resultar no efeito maravilhoso da fig. 89.

Imagine fazer por aqui um bosque assim. Como temos várias espécies de árvores e arbustos floríferos e o nosso inverno não é rigoroso, seria possível formar um bosque colorido o ano inteiro. Poderíamos juntar, sem preconceito, plantas nativas e exóticas: ipês de todas as cores, jacarandás, paineiras, flamboyants, manacás-da-serra, jasmins-manga, ciprestes, quaresmeiras, as diversas três-marias, gardênias, primaveras, melissas, roseiras, cicas, xaxins, cravos, camomilas, frésias e tantas outras. Cores e perfumes à vontade, são tantas as possibilidades que poderia escrever um livro só sobre isso.

Fig. 88 - Matas nativas com ipês denunciando sua presença. Fonte: Instituto Socioambiental [144], Redes Fiepa [145] e Revista Pará+ [146].

Fig. 88 – Matas nativas com ipês denunciando sua presença. Fonte: Instituto Socioambiental [144], Redes Fiepa [145] e Revista Pará+ [146].

 Fig. 89 – Lago Ashi, em Hakone, Japão. As cores são das folhas das árvores, na época de outono. Foto de Ricardo Bevilaqua, obtida de My Tour [147].


Fig. 89 – Lago Ashi, em Hakone, Japão. As cores são das folhas das árvores, na época de outono. Foto de Ricardo Bevilaqua, obtida de My Tour [147].

Ainda é sonho. Porque o que vejo por aí, em qualquer canto do país, são morros pelados e verdes desmaiados, quase sempre sem flores, são mais como um disfarce de conservação. Ao olhamos para uma foto de satélite do local, percebemos o engodo: são pequenas faixas de árvores, que não preservam nada, estão ali apenas para dar a impressão, para quem passa, de que há algum verde. Quando a mata é um pouco mais densa e uniforme, geralmente é um plantio de eucaliptos, pinus ou acácias, que pouco tem de preservação ambiental.

Costuma-se manter verdes somente os lados visíveis, que dão para as estradas ou para a margem dos rios. Quando chegamos perto, vemos a vegetação rala, o sol penetrar todos os espaços e os fracos cursos d’água, sempre turvos, nunca cristalinos.

No verão, estes arremedos de áreas naturais quase não aliviam a temperatura, como fazem as verdadeiras matas, que exalam uma brisa densa, fresca e deliciosa, mesmo nos dias quentes e secos.

Isso é um fiasco, jamais poderíamos falar em preservação do meio ambiente, de tantas agressões e modificações que ele já sofreu. O que se consegue, no máximo, são fracas e isoladas tentativas de recuperação, nada mais.

Sem falar que a forma utilizada para implantar a lei de proibição de corte de árvores nativas é justamente uma das causas da diminuição de sua população e de sua variedade genética, pois nenhum agricultor deixa um angico, araucária, cabreúva, canafístula, cedro, grápia, jacarandá, jequitibá, ipê, mogno ou qualquer outra, passar de meio metro de altura. Para evitar uma multa impagável ou pior, uma prisão sem direito a fiança, no que aparecer um broto de árvore nativa, ele será extirpado. É uma questão de autoproteção, planta-se aquilo que possa ser colhido e que não ofereça riscos ao sustento da família. Ao longo dos anos, as sementes dessas plantas vão escasseando e somem, reduzindo a diversidade.

Mesmo que existam formas de plantio e corte de espécies nativas, há tanta burocracia envolvida, além da insegurança jurídica, que desanima e acua aqueles que pretendem ter florestas nativas e rentáveis.

Por isso é que são praticamente inexistentes as matas plantadas com espécies da nossa flora. Também não encontramos madeiras nobres à venda, nem se fabrica móveis com elas, pois é proibido ou dificultado (exportar pode).

Se o corte fosse permitido/desburocratizado e o plantio incentivado, muitos voltariam a cultivar mudas nativas, pois elas funcionariam como poupança para o futuro (garantia de renda na velhice), além do benefício ambiental. E existiria o comércio legal dessas madeiras, que ajudaria o mercado interno e poderia resultar, novamente, em belos produtos de fontes renováveis. Imagine móveis, esculturas e outros objetos feitos a partir de árvores plantadas comercialmente, como o cedro, mogno, jacarandá, pau-brasil, jequitibá, pau-ferro, ipê e tantas outras.

Como sempre, o problema é fiscalizar os mal comportados. Afinal, quantos aceitariam esperar de 20 a 50 anos para abater uma árvore? E quais políticas públicas durariam tanto tempo em nosso país para, por exemplo, obrigar ao bom uso da terra e coibir a especulação com ela? Apesar da tecnologia dos satélites fazer fotos em alta definição, que podem identificar cada árvore no solo, seria necessário investir pesado em fiscalização de longo prazo e aplicar punições de forma independente, justa e imparcial.

E também deveríamos coibir a exportação desenfreada, chega de alimentar o mundo com madeira rara, de alta qualidade e levar a culpa pelo desmatamento. O desmatamento ocorre porque tem comprador. Uma moratória de uns 50 anos na exportação de madeira, com forte incentivo à plantação de espécies nativas, poderia reverter esse quadro, que lá na frente resultaria no comércio de madeiras nobres

O sumiço das espécies nobres foi causado, principalmente, pela abertura de novas fronteiras agrícolas em grandes áreas e pela exportação de madeira. Quem desmatou e ainda desmata de forma impactante, são os grandes proprietários.

Os agricultores familiares, apesar de também terem sua parcela de culpa, pois precisam ocupar de forma rentável o pouco da terra que têm, não desmataram na mesma escala. Eles apenas sobrevivem e pouco progridem.

As reservas de biodiversidade e o poder

Tudo isso tem volta? Adianta reclamar e querer extinguir as espécies invasoras? É um trabalho insano e improdutivo, que mais serve como exercício intelectual. Os fabricantes de venenos fazem a festa, prometendo bons resultados na aniquilação seletiva.

A Natureza é fluida e mutante, tem uma pulsação que se adapta às condições existentes a cada momento e não cabe em classificações exatas de caixinhas empoeiradas.

E as espécies exóticas não saem invadindo tudo que é lugar. Nem aquelas gramíneas consideradas “pragas” conseguem crescer em matas fechadas, demoram tempo para se dispersar. Se as espécies “invasoras” são eficientes como plantas pioneiras, isso é potencializado também devido à situação ambiental dos locais invadidos, que muitas vezes já são áreas bastante degradadas. O problema, então, não é a planta invasora, mas a situação ambiental do terreno.

Os antigos já diziam que, se a planta está doente, você deve olhar suas raízes, não suas folhas. Ou seja, melhorar a terra tornará a planta saudável. Não estou falando de adubos químicos, mas da simples compostagem, que também pode ser feita em larga escala, sem qualquer dúvida. Ela é formada pela decomposição natural de todo tipo de material orgânico (papéis e papelão, restos de frutas, legumes, ramos, folhas, madeiras, todo tipo de esterco ou estrume, etc.) e pode ser aliada à moagem de pedras, como o basalto, um excelente enraizador. Também podem ser adicionadas cinzas resultantes da queima de qualquer material orgânico, que ajudam a reduzir a acidez do composto. Essas técnicas, quando manejadas corretamente, recuperam e multiplicam a fertilidade de qualquer solo. Não existe terra ruim, existe é manejo incorreto. Digo isso por experiência própria, qualquer solo pode ser melhorado, mesmo o mais pedregoso e inóspito. Há técnicas naturais, de custo relativamente baixo, adequadas para cada caso.

A mania de introduzir as espécies de fora, com o objetivo de lucrar muito, sem respeitar ou passar por estudos técnicos aprofundados, é que arrebenta com a Natureza. Não tanto as espécies plantadas em pequenas propriedades e nas cidades. Os minúsculos proprietários não formam as ondas de negócio, apenas são levados por elas.

No que toca às reservas nativas, elas precisam de um tamanho mínimo para se autossustentarem, devem ficar longe dos aglomerados urbanos e também a salvo dos venenos das lavouras.

E precisam ser respeitadas por seus vizinhos. Olhe no Google Earth a reserva de Foz do Iguaçu, no Paraná, tomada por lavouras ao redor. Ou o Parque Nacional Chapada dos Guimarães, no MT. Estão comendo pelas bordas, é assim em todo o país. Pior ainda quando são reservas indígenas ou as remanescentes dos quilombos.

Esse isolamento das áreas de conservação, se por um lado ajuda pela pouca interferência humana, por outro impede o livre trânsito da fauna. O ideal seria que houvesse densas matas em todos os cursos d’água, tornando comunicantes essas áreas verdes, assim haveria uma verdadeira preservação e manutenção da fauna e flora silvestres.

Fala-se muito em preservação, mas quem nunca plantou nada, nem lidou com a terra, que não viveu no meio do mato, nem observou calma e atentamente os bichos e as plantas e muito menos assistiu à contínua degradação das florestas brasileiras nas últimas décadas, precisa pensar bem antes de arrotar conceitos e regras, em razão de sua formação acadêmica. Ainda que esteja com boas intenções e conheça em alguma medida a Natureza, deve cuidar a quais interesses está realmente servindo.

A Natureza é dinâmica e adaptativa, a falta dessa percepção faz com que muitos ambientalistas não enxerguem que as árvores têm um tempo de vida, que diminui drasticamente quando são vítimas de agressões ou ficam isoladas. Tentar preservá-las a qualquer custo, através de apelos emocionais, sem pesar os pontos positivos e negativos, nem sempre é a melhor solução.

Os seres humanos, especialmente aqueles que detém algum poder, querem mandar, fazer e acontecer. Metem-se em tudo e frequentemente desqualificam, desobedecem e afrontam ritmos e ações naturais, que antes deviam tentar compreender. Prejudicam, sem qualquer escrúpulo, o pequeno comércio e a pequena indústria, em nome do “progresso”, do “desenvolvimento”, ou de alguma causa maior, oculta ou dissimulada. Com as plantas e os animais, hoje brincam de deuses, mesmo contra nossa vontade.

A maioria da população quer e defende que a vida seja agradável, a comida farta e saudável, as cidades mais bonitas, seguras e limpas, com bastante vegetação e trabalho para todos, mesmo que não compreendam claramente como chegar a isso. Critica-se tudo, sem chegar a nada, pois falta foco e determinação.

Ocorre que o país produz muito, mas o benefício dessa produção não chega no bolso e na mesa de todos.

Nem temos uma verdadeira educação, que poderia nos trazer mais capacidade crítica, independência e instrumentos para enfrentar qualquer desafio. A educação que recebemos é a do medo, do temor de que a situação (que já está mal) fique pior. De certa forma, a piora sempre vem e usam de todos os subterfúgios para ampliar nossa tolerância com a violência.

Em que medida poderemos fazer algo para recuperar nossa altivez de brasileiros, contra uns poucos que estão no poder, locupletando-se há séculos do país? Essas oligarquias, preconceituosas contra os de baixo e subservientes a interesses externos, permitem mudanças apenas de fachada, porque a estrutura toda mantém-se a mesma (muda-se tudo, para continuar tudo igual, ao estilo de Tomasi di Lampedusa [148]).

Comportamentos exemplares

Na área ambiental, fazem falta pessoas como o saudoso José Lutzemberger [149][150][151], internacionalmente conhecido, cuja rica história de vida demonstra como foi importante a coragem de mudar, quando trabalhava para uma multinacional alemã, produtora de agrotóxicos.

É difícil encontrar na internet novos textos, tão práticos, ferozes e lúcidos como os que o “Lutz” escrevia, pois além de reclamar de algo com o que não concordava, explicava a forma de cuidar da Natureza, como as técnicas de podas, de tratamento de esgotos e outras. Os artigos “Em defesa do aguapé” e “A absurda poda anual das árvores” (baixem eles DAQUI ou DAQUI) são um exemplo dessa sabedoria.

Uma frase dele explica perfeitamente porque temos de cuidar do planeta:

Devemos aprender com a vida que seus sistemas são estáveis e duradouros porque se baseiam na perfeita reciclagem de recursos e não em seu consumo. Nosso atual sistema econômico baseia-se no consumo da Natureza.”

José Antônio Lutzenberger

O livro “Ecologia – Do Jardim ao Poder”, em dois volumes, é essencial para quem deseja ter uma ideia da importância da Natureza e da preservação ambiental. Atualmente, o legado do ambientalista é preservado no Rincão Gaia (Fundação Gaia) [149][150], uma antiga pedreira transformada em santuário ambiental, com visitas guiadas e cursos, que fica em Rio Pardo, no RS, na divisa com Pantano Grande e próximo à BR-290, a 120 km de Porto Alegre.

Para Lutzenberger e seus seguidores, A CONSERVAÇÃO AMBIENTAL NÃO É CONTRÁRIA À PRODUÇÃO INDUSTRIAL, o que deve ficar claro é a importância da reciclagem de todo e qualquer resíduo, de forma limpa.

Em 1979, Lutzenberger aliou o discurso à prática e fundou a empresa Vida, que continua em atividade, faz tratamento de resíduos e produz compostos para correção de solos, substratos para plantas e insumos industriais, todos registrados no Ministério da Agricultura. O Humosolo, por exemplo, um substrato de compostagem feito a partir de restos de eucalipto, está certificado e pode ser usado inclusive pelos produtores orgânicos. A empresa também presta consultoria na área, a página web deles está na referência [151].

Outro importante especialista em questões ambientais foi o professor Carlos Gabaglia Penna, que escreveu o excelente livro “O Estado do Planeta” [90]. Há, certamente, muito mais pessoas boas por aí, ocupadas em fazer até o impossível para preservar o futuro da única e verdadeira casa de todos.

Um desses é Helton Josué Teodoro Muniz, o maior colecionador de árvores frutíferas do Brasil, que, apesar de suas dificuldades motoras, cuida carinhosamente de mais de 1300 espécies frutíferas em sua propriedade de 6 hectares, em SP.

Isso mesmo, apenas 6 ha abrigam cerca de 1100 espécies de frutas nativas, das 4 mil existentes em nosso gigante país. E ele ainda tem espaço para mais de 200 espécies de frutíferas exóticas. Helton aprendeu taxonomia por conta própria e na sua página da internet [152] ele traduz os termos para a linguagem coloquial, muito bom para aprender as características das árvores.

Helton e outros tantos, que lidam com mudas de plantas, tem imensas dificuldades para disseminá-las pelo resto do Brasil, porque as barreiras fitossanitárias e burocráticas praticamente impedem a comercialização em pequena escala.

No exterior, é fácil e barato comprar mudas, inclusive de árvores, que podem viajar milhares de quilômetros, sem problemas. Porque aqui tem que ser tão difícil?

Novamente, esta é a “consciência ecológica” vista na prática.

E a nossa água?

A todo momento alardeiam que a água um dia acabará, em vez de informar, incentivar e cobrar imediatamente o uso de técnicas para usá-la de forma sustentável, para tornar o ambiente mais limpo.

Como acabar com os esgotos não tratados, controlar severamente os resíduos industriais e reduzir ao extremo o consumo de venenos e adubos químicos. Só isso bastaria para termos água para sempre, em abundância!

Omitem que TUDO NA NATUREZA É RECICLADO, os átomos que formam a gota de água que mata tua sede ou que estão em uma célula de qualquer ser vivo, têm bilhões de anos!

Nosso país é o maior consumidor de venenos do planeta, mas estamos longe de ter a maior produção agrícola (produzimos apenas 4% do total mundial). A pecuária ocupa 3 vezes mais área que a agricultura, por isso consideram que o Brasil tem o maior potencial agrícola do mundo. O ruim é que mais da metade dessa produção agrícola é utilizada para alimentar animais, a uma taxa de conversão de 13 quilos de ração para meio quilo de carne [90][153][154][155].

Exemplos claros de mau uso da água são as imensas lavouras para produção de grãos, bem como as “reservas florestais” de acácias, pinus e eucaliptos, para a extração de celulose, tanino, lenha e carvão.

Tais cultivos abusam do estresse hídrico, uma técnica que faz a planta absorver o que puder de água do solo, para crescer rapidamente. Isso seca as nascentes e destrói o ambiente natural, pois não oferece condições de vida para a fauna, nem para os microrganismos, que precisam da umidade para viver nas raízes. O ambiente mais seco só é adequado para o uso dos venenos. E é muito propício a grandes incêndios.

E as culturas de banhado, como o arroz. Essas plantas crescem submersas em lâmina d’água, daí usam imensos sistemas de bombeamento, que reduzem fortemente a vazão dos riachos.

Fig. 90 - Gráfico do consumo médio de água no Brasil. Fonte: Relatório de Conjuntura Pleno 2017, ANA [156].

Fig. 90 – Gráfico do consumo médio de água no Brasil. Fonte: Relatório de Conjuntura Pleno 2017, ANA [156].

Nossos rios e córregos ficam, a cada ano, mais minguados, irregulares e poluídos, pois são eles que escoam os venenos e adubos, lavados e levados pelas chuvas. Muitos desses cursos d’água só correm na época das cheias, outros já secaram completamente. Mas, isso faz parte dos “efeitos colaterais”.

O agronegócio brasileiro exporta água para o mundo, pois consome 78% do total disponível no país (irrigação e abastecimento animal) [156]. A média brasileira do consumo de água pelo setor agropecuário tem aumentado nos últimos anos, descolando-se da média mundial, que fica perto de 70%.

A indústria, o comércio e as residências respondem pelos 22% restantes do consumo de água (abastecimento rural e urbano, mineração, termoelétricas, indústria) [156]. Ainda assim, a escassez é debitada na conta dos cidadãos, pelo “mau uso”. Como se fosse possível desperdiçar um recurso cada vez mais caro para a maioria de nós e cuja influência no gasto total é muito pequena.

Imagine se aumentarem mais ainda a fronteira agrícola, teremos água para viver? Talvez pretendam reduzir a população ou a industrialização do país, vá saber.

O problema aumenta com os esgotos, cujo tratamento nas cidades é, via de regra, inexistente. Ou ineficaz, pois permitem instalar fossas e filtros subdimensionados, que podem ser carregados debaixo do braço. Os dejetos seguem para os mananciais e ajudam na eutrofização, já começada pelos adubos lixiviados.

No litoral, os esgotos são despejados no mar, poucas cidades fazem um verdadeiro tratamento. Quando o cheiro fica insuportável e os problemas de saúde começam a abalar o turismo, aumentam o comprimento dos canos, mar adentro (foi isso que fizeram em uma importante cidade litorânea de SC, há alguns anos).

Nas regiões tomadas há mais tempo pela agricultura, como aqui no sul do país, ninguém mais navega em rios, só as barcas de extração de areia. Todos os rios estão sempre barrentos, mas antigamente, eles turvavam só nos dias de chuva.

Pergunte a qualquer pessoa com 50, 60 anos ou mais, como era sua infância, como eram os arroios, sangas e córregos. Há algumas décadas, vivíamos rodeados de matas e de águas, todos tomávamos banho de rio e poucos iam às praias, pois o lazer era regionalizado. No norte e no centro-oeste do Brasil, ainda há muitos lugares assim. Não sei por quanto tempo.

As águas de Bonito, no MS, por exemplo, são muito parecidas com as de minha cidade natal de outrora. Era comum entrar num riacho cheio de plantas e peixes, molhar-se até a cintura e ainda enxergar os pés. Hoje, tomar banho nos rios do RS é praticamente impossível, podemos adoecer.

Existentes em todos os municípios, as cascatas e cachoeiras só despejam fiozinhos d’água, na maior parte do tempo. Antes não era assim, as quedas d’água eram estrondosas e ouvidas de longe, chovesse ou não. Levaram menos de meio século para estragar tudo.

Somos o país das águas, mas quem as cuida? Não aprendemos realmente a preservá-las. Aliás, não nos deram essa possibilidade.

Nas cidades, um reflexo direto do mau uso da água é a coleta e o tratamento, atividades cada vez mais caras e difíceis. De alguns anos para cá, no verão, a água tem cor, cheiro e sabor. Aprendemos na escola que a água é incolor, inodora e insípida, não é mesmo? A culpa deve ser das mudanças climáticas.

Para não atrapalhar as obras viárias e valorizar as construções urbanas, escondem as vertentes e os riachos debaixo de concreto, em valas misturadas ao esgoto cru, sem tratamento (fig. 90). Por isso, as ruas brasileiras fedem no verão escaldante e o povo fica cada vez mais doente e isolado das águas. A culpa, claro, é das mudanças climáticas.

Fig. 91 - Cobertura do córrego em SCS.

Fig. 91 – Cobertura do córrego em SCS.

Os venenos precisam ser mais controlados e causar punições severas, especialmente no caso dos produtos proibidos. Cá para nós, você já viu algum grande produtor agrícola, devedor de empréstimos e/ou contrabandista de venenos, ser (e ficar) preso? Vai ver, a culpa é das mudanças climáticas.

O problema do aquecimento global é de suma importância – se realmente for causado pelos humanos. Para manejá-lo, cada um deve fazer a sua parte. Ocorre que aqueles que tem maior poder, mais terras e mais dinheiro são proporcionalmente mais responsáveis pelos problemas ambientais, pois detêm maior capacidade de influência e modificação.

Para a multidão, resta obedecer. Por isso que a imensa maioria dos agricultores trabalha com “receitas de bolo”, quase nem pensa no que está fazendo. Isso também deve ser culpa das mudanças climáticas.

Os poderosos – de qualquer esfera de influência – não devem lavar as mãos, como Pilatos. A alguns, falta vergonha na cara, para começar a fazer o que é certo e talvez um dia tornarem-se bons exemplos para a sociedade. Não dizem que os exemplos vêm de cima? São os exemplos dos juristas, dos políticos, das grandes empresas e dos meios de comunicação que moldam o comportamento das massas, não o contrário.

Querem que acreditemos que tudo só depende de nós, quando estão determinando ou impedindo nossas ações. Querem que acreditemos que não mandam, justamente quando mais fazem isso.

Os maus exemplos, junto com uma educação que não educa, formam a raiz da ignorância de tantas pessoas, que aceitam, sem reagir, as ideias vindas de fora ou de alguém mais importante. Não é diferente quando falamos da Natureza.

Qualquer vegetal que cresça ou que se reproduza demasiadamente, dispensa cuidados e pode ser cultivado facilmente, em qualquer lugar, por qualquer pessoa, com rudimentares conhecimentos.

Muitas plantas da lista de invasoras poderiam ajudar a acabar com a fome, ou fornecer grande quantidade de matéria-prima em pequenos espaços. Essa “democratização” talvez não interesse àqueles que sempre planejam a escassez, para depois ganhar rios de dinheiro. Seja escassez de alimentos, de água, de bens ou de conhecimento.

Ufa! Berrei, desabafei bastante, serviu para desopilar a cabeça e compensar um pouco a falta do ligustro. Acho que são as mudanças climáticas, mexendo com minha cabeça.

REFERÊNCIAS

A retirada do ligustro

[1] Tribuna PR – Transplante de árvores salvam espécies da cidade – https://www.tribunapr.com.br/noticias/curitiba-regiao/transplante-de-arvores-salvam-especies-da-cidade/

[2] Fruto Urbano – Página inicial –

http://frutourbano.org.br/

As raízes são o espelho da copa? NÃO MESMO!!

[3] The Tree Center – Tree Rootshttps://www.thetreecenter.com/tree-roots/

Os raios e as árvores

[4] ELAT – Grupo de Eletricidade Atmosférica – INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Proteção seres humanos http://www.inpe.br/webelat/homepage/ ou

http://www.inpe.br/webelat/homepage/menu/protecao/protecao.seres.humanos.php

[5] Fragmentos de Paixão – Página do documentário – http://www.fragmentosdepaixao.net.br/ ou

http://www.sesctv.org.br/aovivo

Como prolongar a vida das árvores

[6] IPHAN – Brasília – Fotos – http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/images/Diversas/DF_Brasilia/?C=M;O=A

O plantio de árvores nas calçadas

[7] Cornell University – UHI – Urban Horticulture Institute – Using CU-Structural Soil in the urban environment – http://www.hort.cornell.edu/uhi/outreach/pdfs/custructuralsoilwebpdf.pdf

[8] Cornell University – UHI – Urban Horticulture Institute – CU-Structural Soil – An update after more than a decade of use in the urban environment – http://www.hort.cornell.edu/uhi/outreach/csc/city_trees.pdf

[9] Cornell University – UHI – Urban Horticulture Institute – Using Porous Asphalt and CU-Structural Soil – http://www.hort.cornell.edu/uhi/outreach/pdfs/cu_porous_asphalt.pdf

[10] Cornell University – UHI – Urban Horticulture Institute – Managing Stormwater for urban sustentability using tress and structural soilshttp://www.hort.cornell.edu/uhi/outreach/pdfs/TreesAndStructuralSoilsManual.pdf

[11] Cornell University – UHI – Urban Horticulture Institute – CU-Structural Soil – A Comprehensive Guide http://www.hort.cornell.edu/uhi/outreach/pdfs/CU-Structural%20Soil%20-%20A%20Comprehensive%20Guide.pdf

[12] Benoton B.V. – Boomkransen En Boomranden https://www.benoton.nl/gww-assortiment/straatmeubilair/boomkransen-en-boomranden/

[13] Ironsmith – Paver-Grate Systemhttp://www.ironsmith.cc/Paver-Grate.htm

Transplante de árvores

[14] Husqvarna – Conheça o processo de transplante de árvores – http://www.mundohusqvarna.com.br/assunto/conheca-o-processo-de-transplante-de-arvores/

[15] University of Kentucky – College of Agriculture, Food and environment – Department of Forestry and Natural Resources – Publication & Videoshttp://forestry.ca.uky.edu/publications-videos

[16] Indiana Department of Natural Resources – Forestry – American Stantard for Nursery Stockhttps://www.in.gov/dnr/forestry/files/fo-ANSI_Z60_1_04.pdf

[17] Optimal-Vertrieb Opitz Gmbh – https://www.opitz-optimal.com/

[18] Grünwert – Großbaumverpflanzunghttps://www.gruenwert.at/grossbaumverpflanzung/

[19] Damcon B.V. – Tree spadeshttps://www.damcon.com/machines/tree-spades/

[20] Optimal-Vertrieb Opitz Gmbh – Urbanisation em Mer – Transplantation des Herbiers de Posidoniehttps://www.opitz-optimal.com/index.php?id=408

[21] Euronews – O Mônaco vai crescer em direção ao mar – https://pt.euronews.com/2015/10/12/o-monaco-vai-crescer-em-direcao-ao-mar

[22] The B1M – Monaco’s Mediterranean Expansion

https://www.theb1m.com/video/monacos-mediterranean-expansion

[23] Dutchman Tree Spades – Productshttp://www.dutchmantreespade.com/products/productsindex.php

[24] IBF fecha parceria com líder mundial em transplante de árvores – https://www.ibflorestas.org.br/noticias/962-ibf-fecha-parceria-com-lider-mundial-transplante-arvores.html

[25] Quick Attack – Tree Jackhttp://www.quick-attach.com/attachments/treespade/

[26] Big John – 100 inch truck spadehttps://big-john.com/products/truck-mounted/model-100d/

[27] Bobcat – Attachments – Tree spade – Featureshttps://www.bobcat.com/attachments/tree-spade/features

[28] Erskine – Tree spadehttp://www.erskineattachments.com/tree-spade

[29] Holt Industrial – Tree Spades – http://holtindustrial.com/treespades/

[30] Lemar – Products – Tree Spades – https://lemartreespade.ca/products/tree-spades/

[31] Curitiba – Prefeitura reorganiza arborização de praça com transplante de árvores – http://www.curitiba.pr.gov.br/fotos/album-prefeitura-reorganiza-arborizacao-de-praca-com-transplante-de-arvores/26718

[32] DGG International Treemoving Treecare – Examples of design and planninghttps://www.dgg-international.com/engl/index_v.htm

[33] – Fakopp – Detector de raíceshttp://fakopp.com/es/product/rootdetector/

[34] TreeRadar Investigations – What does TreeRadar GPR do? http://tree-radar.com/what-does-tree-radar-ground-penetrating-radar-gpr-do

[35] Air Spade – Pneumatic Soil Excavationhttps://www.airspade.com/

[36] Grimm’s Gardens – The Air Spade: What is it and what does it do?https://www.grimmsgardens.com/air-spade-do/

[37] BoomOntzorging – Boomtechnisch onderzoek voor andere boomverzorgings boomadviesbedrijven https://boomontzorging.com/portfolio-item/boomtechnisch-onderzoek-voor-andere-boomverzorgings-boomadviesbedrijven/

[38] ResearchGate – Jan No Cermák – Instrumental methods for studies of structure and function of root systems of large treeshttps://www.researchgate.net/publication/10775548/download

[39] Anthony Tree Experts – Root Managementhttps://www.anthonytreeexperts.com/tree-service/root-management-2/

[40] Golden Rule Soil – Healthy Treeshttp://goldenrulesoil.blogspot.com/2015/01/our-vision-for-2015.html?m=1

[41] Schichtel’s Nursery – Bare root plant material http://www.schichtels.com/bare_root_plant_material

[42] Taking Place In The Trees – Moving maturityhttps://takingplaceinthetrees.net/2013/02/11/moving-maturity/

[43] Taking Place In The Trees – Katsura update – https://takingplaceinthetrees.net/2013/07/31/katsura-update/

[44] Taking Place In The Trees – Bare-root fastigiate beech transplant

https://takingplaceinthetrees.net/tag/air-spade-transplanting/ ou

https://takingplaceinthetrees.net/tag/air-spade-transplanting/page/1/

[45] Fine Gardening – Planting bareroot treeshttps://www.finegardening.com/article/planting-bareroot-trees

[46] UHI – Cornel University – Creating the urban forest – The bare root methodhttp://www.hort.cornell.edu/uhi/outreach/pdfs/bareroot.pdf

[47] Arborday – How to plant bare root treeshttps://www.arborday.org/trees/planting/bare-root.cfm

[48] Blainemm – Bare root plantshttps://www.blainemn.gov/226/Bare-Root-Trees

[49] Deeproot – Green Infraestructure – Nursey Inspections – part 1:

Creating and enforcing plant quality specificationshttp://www.deeproot.com/blog/blog-entries/nursery-inspections-creating-and-enforcing-plant-quality-specifications

[50] Deeproot – Green Infraestructure – Nursey Inspections – part 2:

The inspection process below groundhttp://www.deeproot.com/blog/blog-entries/nursery-inspections-the-inspection-process-below-ground

[51] h2g2 – KatsuraThe caramel treehttps://h2g2.com/edited_entry/A87790026

[52] Reed’s Garden Ramblings – Reed Versus The Volcano (tree volcano that is) – http://reedsgardenramblings.blogspot.com/2013/05/reed-versus-volcano-tree-volcano-that-is.html

[53] Chronogram – Michelle Sutton – Plates, not mirrors – How tree roots grow and what that means for gardenershttps://www.chronogram.com/hudsonvalley/plates-not-mirrors/Content?oid=2915672

[54] Green Belt Consulting – Elliott Menashe – The tree and the soilhttp://www.greenbeltconsulting.com/articles/treeandsoil.html

[55] Arboriculture – Martin Dobson – Tree root systemshttps://www.trees.org.uk/Trees.org.uk/files/61/6181f2b7-e35d-4075-832f-5e230d16aa9e.pdf

[56] Texas A&M AgriLife Extension – Douglas F. Welsch, Everett E. Janne Protecting existing landscape trees from construction damage due to grade changes https://aggie-horticulture.tamu.edu/earthkind/landscape/protecting-trees/

[57] UHI – Urban Horticulture Institute Cornell Universityhttp://www.hort.cornell.edu/uhi/

[58] UHI – Urban Horticulture Institute Cornell University Outreach – http://www.hort.cornell.edu/uhi/outreach/index.htm#soil

[59] UHI – Urban Horticulture Institute Cornell University – Excavation of London Plane tree roots growing for 5 years n CU-Structural Soilhttps://vimeo.com/15988632

[60] Research Gate – Murielle Ghestem, Roy C. Sidle, Alexia Stokes – The influence of plant root systems on subsurface flow: Implications for slope stabilityhttps://www.researchgate.net/publication/232693766_The_Influence_of_Plant_Root_Systems_on_Subsurface_Flow_Implications_for_Slope_Stability?_sg=zQbIdkunffzhkRHTEfp-8cuLfOQFlpQLu2LscG8A4TZDTBzD7VOS5kfsiUyhrApNSZMyTzi0n3RK9CRaT0mNKv71q5awbKUl7A

[61] Estude Agronomia – Como preparar cova para plantio de pomarhttps://estudeagronomia.blogspot.com/2013/03/como-preparar-cova-para-plantio-de.html

[62] O Meu Jardim – Como plantar e cuidar de árvores – https://omeujardim.com/artigos/como-plantar-cuidar-arvores

[63] IPEF (Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais – Publicações – http://www.ipef.br/publicacoes/

[64] Embrapa – Arborização urbana no semiárido: espécies potenciais da Caatinga – https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/CPAP-2009-09/56879/1/FOL140.pdf

[65] IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo – Soluções Tecnológicas – https://www.ipt.br/solucoes_tecnologicas

[66] Gilmar Altamirano, Jose Roberto Andrade Amaral, Paulo Sérgio Silva – Calçadas Verdes e Acessíveis – http://arquivos.ambiente.sp.gov.br/municipioverdeazul/2013/05/Cal%C3%A7adas-Verdes-e-Acess%C3%ADveis.pdf

A seiva, o alburno, a fotossíntese, o câmbio

[67] Universo la Maga – La memoria de los árboles – http://www.universolamaga.com/la-memoria-de-los-rboles/

[68] Paleociencia – Anillos de árboles y las sequías de Norteamérica – http://paleociencia.weebly.com/blog/anillos-de-arboles-y-las-sequias-de-norteamerica

[69] Planta e Girls – Histologia Vegetal – https://plantaegirls.blogspot.com/2011/07/meristemas-as-plantas-presentam.html

[70] Prof. Djalma Santos – Alburno e cerne –

https://djalmasantos.wordpress.com/2010/09/26/alburno-e-cerne/

[71] Los blogs de Hélicon – La madera: Qué son los anillos del tronco de un árbol?http://colegiohelicon.org/blogs/tecnohelicon/2011/01/18/la-madera-que-son-los-anillos-del-tronco-de-un-arbol/

[72] Muebles Lufe – Cómo leer los anillos de un árbolhttps://muebleslufe.com/blog/como-leer-los-anillos-de-un-arbol/

[73] (O) Eco – Árvores amazônicas guardam registros do regime de chuvas –

http://www.oeco.org.br/noticias/26546-arvores-amazonica-guardam-registros-do-regime-de-chuvas/

A poda das árvores

[74] Leo Prieto – El mayor tesoro del Chile https://leo.prie.to/2017/04/el-mayor-tesoro-de-chile/

[75] Descubre los Rios – Sernatur – Región de Los Rios – El increíble encuentro com el “Gran Abuelo Alerce” y los secretos del Río Buenohttp://descubrelosrios.cl/gran-abuelo-alerce-rio-bueno/

[76] Jornal Ciência – árvore mais velha no mundo esconde alguns segredos incríveis – http://www.jornalciencia.com/arvore-mais-velha-no-mundo-esconde-alguns-segredos-incriveis/

[77] Áreas Verdes das Cidades – O “Patriarca da Floresta” – Jequitibá-rosa do Parque Estadual Vassununga – https://www.areasverdesdascidades.com.br/2003/11/o-patriarca-da-floresta-jequitiba-rosa.html

[78] Argus Engenharia – Produtos e sistemas contra incêndio – Você sabe quais são as 5 maiores árvores do Brasil? – http://www.argus-engenharia.com.br/site/voce-sabe-quais-sao-as-5-maiorwes-arvores-do-brasil/

[79] Viajali – 11 razões para você conhecer Alter do Chão, o Caribe Amazônico – https://www.viajali.com.br/conhecer-alter-chao-caribe-amazonico/ ou

https://chickenorpasta.com.br/guias/alter-do-chao-o-caribe-amazonico

[80] Oficina Paula Castro – Fim de ano de luz – Sumaúma – A árvore da vida – http://oficinaanapaulacastro.blogspot.com/2011/12/fim-de-ano-de-luz.html

[81] Viagens e Caminhos – Maior araucária do mundo – Parque do Pinheiro Grosso – https://www.viagensecaminhos.com/2017/01/maior-araucaria-do-mundo-parque-do-pinheiro-grosso-canela.html

[82] Revista História Ciências Saúde – Fiocruz Manguinhos – Flora brasiliensis, de Von Martius, é tema de palestra no Museu do Meio Ambiente – http://www.revistahcsm.coc.fiocruz.br/a-atualidade-da-obra-flora-brasiliensis-de-von-martius-e-tema-de-palestra-no-museu-do-meio-ambiente/

[83] Flora Brasiliensis – Acervo – http://florabrasiliensis.cria.org.br/

[84] Instituto Moreira Salles – IMS – Por dentro dos acervos do patrono dos cinco biomas – https://ims.com.br/por-dentro-acervos/patrono-dos-cinco-biomas/

[85] Reflora – Projeto de classificação Flora do Brasil 2020 – http://www.floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/listaBrasil/PrincipalUC/PrincipalUC.do#CondicaoTaxonCP

As espécies “invasoras” e a coevolução

[86] Instituto de Botânica – Plantas exóticas invasoras na Reserva biológica do alto da Serra de Paranapiacaba – http://botanica.sp.gov.br/files/2013/09/virtuais_5guiacampo.pdf

[87] IABIN – Rede Interamericana de Informação sobre Biodiversidade – Base de dados nacional de espécies exóticas invasoras I3N Brasil – Instituto Hórus de Desenvolvimento e Conservação Ambiental – http://i3n.institutohorus.org.br/www/

[88] Instituto Hórus – Artigos científicos – http://www.institutohorus.org.br/index.php?modulo=artigos_cientificos

[89] Embrapa – Ageitec – Milho orgânico – http://www.agencia.cnptia.embrapa.br/gestor/milho/arvore/CONT000fz5e6zsp02wx5ok0cpoo6agwc2gy1.html

[90] Carlos Gabaglia Penna – O estado do planeta – Sociedade de consumo e degradação ambiental – Rio de Janeiro: Ed. Record, 1999

[91] Piotr Kropotkin – Ajuda mútua: um fator de evolução – http://www.otal.ifcs.ufrj.br/wp-content/uploads/2013/09/Ajuda-M%C3%BAtua-um-fator-de-evolu%C3%A7%C3%A3o-Piotr-Kropotkin.pdf

[92] BBC – ‘Aposentadas’ por antibióticos, larvas de mosca voltam a ser usadas para tratar feridas crônicas – https://www.bbc.com/portuguese/geral-44738884

[93] Coletivo Verde – Terapia Larval – Uso de larvas de mosca para cicatrização de feridas http://www.coletivoverde.com.br/terapia-larval/

[94] NCBI – National Center for Biotechnology Information – Use of maggot therapy for treating a diabetic foot ulcer colonized by multidrug resistant bacteria in Brazilhttps://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4442332/

[95] Revista Acadêmica – Ciência Animal – Semioquímicos de plantas – https://periodicos.pucpr.br/index.php/cienciaanimal/article/view/9606/9219

[96] UFPR – Laboratório de Semioquímicos – http://www.quimica.ufpr.br/semioquimicos/

[97] Paisagismo Brasil – Flor cria ‘aeroporto’ para abelhas em suas pétalas – http://www.paisagismobrasil.com.br/index.php?system=news&news_id=1316&action=read

[98] Scientific American Brasil – Tomates fazem lagartas se transformarem em canibais – http://www2.uol.com.br/sciam/noticias/tomates_fazem_lagartas_se_transformarem_em_canibais.html

[99] ASN – Agência Social de Notícias – André Sarria – O silêncio dos jardins – http://asn.blog.br/2018/05/10/o-silencio-dos-jardins/

[100] Paisagismo Digital – As plantas também sabem se defender sozinhas! – https://paisagismodigital.com/noticias/?id=as-plantas-tambem-sabem-se-defender-sozinhas&in=9

predadores-de-lagartas–1651048.html

[101] DN – Planta de tabaco liberta químico que atrai predadores de lagartas – https://www.dn.pt/ciencia/interior/planta-do-tabaco-liberta-quimico-que-atrai-

[102] Química Nova – Alana Lima-Mendonça et tal – Semioquímicos de moscas das frutas do gênero Anastrepha –

http://quimicanova.sbq.org.br/imagebank/pdf/v37n2a17.pdf

[103] ASN – Agência Social de Notícias – André Sarria – De que maneira plantas vivendo em harmonia estão melhorando a produção de alimentos na África –

http://asn.blog.br/2017/08/31/de-que-maneira-plantas-vivendo-em-harmonia-estao-melhorando-producao-de-alimentos-na-africa/

[104] Embrapa – Nova cultivar de capim-elefante apresenta produtividade 30% maior – https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/17002039/nova-cultivar-de-capim-elefante-apresenta-produtividade-30-maior

[105] 4erevolution – Vidéo de la semaine: Le robot agricole BoniRob de Bosch/Deepfield Roboticshttps://www.4erevolution.com/robot-agricole-bonirob/

[106] AGCO/Fendt – MARS: Robot system for planting and accurate documentationhttps://www.fendt.com/int/fendt-mars.html

[107] VitiRover Solutions – Des troupeaux de robots pour remplacer le glyphosatehttps://www.vitirover.fr/

[108] Echord++ – The European Coordination Hub for Open Robotics Developmenthttp://echord.eu/

[109] Octopus Robots – Poultry Robots https://octopusrobots.com/en/octopus-poultry-safe-en/

https://youtu.be/HpxZQ9H8smg

[110] Octinion – Strawberry pickerhttps://octinion.com/products/harvesting-series/strawberry-picking-robot

[111] Agrobot – Robotic Harvestershttps://agrobot.com/

[112] Agriexpo – Robô agrícola – http://www.agriexpo.online/pt/fabricante-agricola/robo-agricola-35.html

[113] Robotrends – Каталог автономных сельскохозяйственных роботов для работы в поле, в саду или теплице http://robotrends.ru/robopedia/katalog-avtonomnyh-robotov-dlya-raboty-v-selskom-hozyaystve

[114] Yanmar – Os robôs é que irão nos salvar? A tecnologia transformando o futuro da agricultura – https://www.yanmar.com/br/about/ymedia/product/agri_robot.html

[115] Yanmar – Até onde podemos chegar? Uma matéria feita em Hokkaido sobre o pioneirismo das pesquisas em robótica aplicada à agricultura – https://www.yanmar.com/br/about/ymedia/product/agri_robot_02.html

[116] Revista Fapesp – Espécies invasoras: Indesejáveis, mas nem sempre – http://revistapesquisa.fapesp.br/2012/02/26/indesej%C3%A1veis-mas-nem-sempre/

[117] National Geographic – Novas espécies são descobertas diariamente na Amazônia – https://www.nationalgeographicbrasil.com/novas-especies-sao-descobertas-na-amazonia

[118] SEMA RS – Espécies exóticas invasoras 2011-2015 – http://www.sema.rs.gov.br/upload/arquivos/201706/28164322-exoticas-invasoras-versaodigital.pdf

[119] Agência FAPESP – Abelha sem ferrão nativa do Brasil cultiva fungo para sobreviver – http://agencia.fapesp.br/abelha-sem-ferrao-nativa-do-brasil-cultiva-fungo-para-sobreviver/22113/

[120] Instituto Cabruca – História do cacau – http://cabruca.org.br/historiaDoCacau.php

[121] Fiocruz – Invivo – Vassoura-de-bruxa – http://www.invivo.fiocruz.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=873&sid=9

[122] Oba Gastronomia – O cacau de Ilhéus – Dos coronéis à vassoura-de-bruxa – https://obagastronomia.com.br/o-cacau-de-ilheus-dos-coroneis-a-vassoura-de-bruxa/

[123] Mercado do Cacau – Após a vassoura-de-bruxa – http://mercadodocacau.com/artigo/apos-a-vassoura-de-bruxa

[124] BBC Brasil – Doença do cacau brasileiro ameaça produção mundial, dizem pesquisadores – https://www.bbc.com/portuguese/ciencia/story/2004/06/040625_cacaucl.shtml

[125] Revista PIB – Presença Internacional do Brasil – Cacau fino – Produtores baianos dão a volta por cima – http://www.revistapib.com.br/pdf/PIB-ed18.pdf

[126] Ilhéus Bahia – Reportagem sobre o cacau orgânico no Globo Reporter – https://ilheusbahia.wordpress.com/2008/10/11/reportagem-sobre-o-cacau-no-globo-reporter/

[127] UESC Biblioteca – Universidade Federal de Sergipe – Lurdes Bertol Rocha – A região cacaueira da Bahia – Uma abordagem fenomenológica – http://www.biblioteca.uesc.br/biblioteca/bdtd/732758856T.pdf

Preservação ambiental nas cidades

[128] CANÇADO, Wellington. Contra a grama. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, número 06, página 38-40, 2013. Disponível em https://piseagrama.org/contra-a-grama/

[129] Presidência da República – Casa Civil – Lei 12.651, de 25 de maio de 2012 – http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12651.htm

O engodo da preservação ambiental no campo

[130] CTA – Agrodok 11 – Hil Kuypers, Anne Molema, Egger Topper – Luta anti-erosiva nas regiões tropicais – https://publications.cta.int/media/publications/downloads/967_PDF.pdf

[131] Embrapa – Semeadura em contorno pode reduzir em 50% perdas de água e solo por erosão – https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/17952130/semeadura-em-contorno-pode-reduzir-em-50-perdas-de-agua-e-solo-por-erosao

[132] Agroecologia – Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – http://www.agroecologia.gov.br/sites/default/files/publicacoes/4-cordoes-de-contorno.pdf

[133] Scielo – J.R.C. Silva e F.J. da Silva – Eficiência de cordões de pedra em contorno na retenção de sedimentos e melhoramento de propriedades de um solo litólico – http://www.scielo.br/pdf/rbcs/v21n3/13.pdf

[134] Embrapa – José Eloir Denardin et al – Gestão conservacionista de solo e de água em escala de microbacia hidrográfica: estudo de caso – https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/CNPT-2010/40705/1/p-do87.pdf

[135] Fisher and Farmers – Working together locally for farms, streams ans prosperous communities https://fishersandfarmers.org/working-together-locally-for-farms-streams-and-prosperous-communites/

[136] Wikimedia – Contour Farminghttps://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/c9/%22Contour_Farming%22_-NARA-_514080.jpg

[137] Flickr – JC Richardson Richardson Farlmand, Winsconsin – https://www.flickr.com/photos/jimrichardsonphotography/10911728535

[138] Britannica – Contour farminghttp://media.web.britannica.com/eb-media/99/65699-050-B9FC6122.jpg ou

https://www.britannica.com/topic/contour-farming/media/135192/149126

[139] Photoshelter – Contour Farminghttps://ssl.c.photoshelter.com/img-get/I00008ofAJoKXzi8/s/900/900/Aerial-Contour-Farming-Berks-Co-PA.jpg

[140] Wikimedia Commons – Contour Farming – Missouri – NARA – 1930 – https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Aerial_view_of_contour_farming.MissouriNARA-_286180.jpg

[141] Ardin Rixi – ΟΙΚΟΛΟΓΙΑ – Λίνας Γιαννάρου – Ανθεί η βιολογική γεωργία στη χώρα μαςhttp://ardin-rixi.gr/archives/1737

[142] Sou Ecológico – A fraude dos ipês – http://www.souecologico.com.br/materia.php?id=93&secao=1586&mat=1804

[143] Amazônia Notícia e Informação – Ipês de madeira nobre estão sempre na mira dos madeireiros ilegais – http://amazonia.org.br/2017/01/ipes-de-madeira-nobre-estao-sempre-na-mira-dos-madeireiros-ilegais/

[144] Instituto Socioambiental – Cinco motivos para uma moratória na exploração do ipê – https://www.socioambiental.org/en/node/5346

[145] Redes Fiepa – Projeto Ferro Carajás vai deixar legado ambiental na Amazônia – http://redesfiepa.org.br/novo/projeto-ferro-carajas-vai-deixar-legado-ambiental-na-amazonia/

[146] Revista Pará+ – Como fraudes de madeireiras ameaçam a sobrevivência do ipê na Amazônia – http://paramais.com.br/como-fraudes-de-madeireiras-ameacam-a-sobrevivencia-do-ipe-na-amazonia/

[147] My Tour – Những Nơi Có Mùa Thu Đẹp Nhất Thế Giới

https://mytour.vn/location/10004-nhung-noi-co-mua-thu-dep-nhat-the-gioi.html

As reservas de biodiversidade e o poder

[148] Giuseppe Tomasi di Lampedusa – https://pt.wikipedia.org/wiki/Giuseppe_Tomasi_di_Lampedusa

Comportamentos exemplares

[149] Fundação Gaia – Página inicial – http://www.fgaia.org.br/

[150] Fundação Gaia – Textos – http://www.fgaia.org.br/texts/index.html

[151] Vida – Empresa de tratamento de resíduos – Missão – http://vida-e.com.br/institucional/#missao

[152] Colecionador de Frutas – Helton Josué Muniz – Colecionando Frutas – http://www.colecionandofrutas.org/listagemmudas.htm

E a nossa água?

[153] Embrapa – Produção agrícola mundial – https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/19030/1/Producao-agricola-mundial.pdf

[154] O Eco – A produção de alimentos vista do espaço – http://www.oeco.org.br/blogs/geonoticias/27400-a-producao-de-alimentos-vista-do-espaco/

[155] O Eco – A que é a agrossilvicultura – http://www.oeco.org.br/dicionario-ambiental/29073-o-que-e-a-agrossilvicultura/

[156] ANA – Agência Nacional de Águas – SINRH – Sistema Nacional de Informações sobre Recursos Hídricos – Relatório de Conjuntura Pleno 2017 – http://www.snirh.gov.br/portal/snirh/centrais-de-conteudos/conjuntura-dos-recursos-hidricos

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  1. paulo de tarso Bernardi
    11 de novembro de 2018 às 21:09

    Prezado Eusébio, gostaria de entrar em contato com você sobre a matéria dos ventiladores de teto.
    Obrigado. Boa noite.

    • 14 de novembro de 2018 às 22:02

      Paulo, eu modero todos os comentários, se houver algo que não deva ser publicado, não se preocupe, não publicarei. Escreva para mim por aqui mesmo.

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