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Agora, as pernas tremem


Fonte: https://www.sul21.com.br/editoria/imagens/charges/

Sei não, esse plano subterrâneo, engendrado em outra língua, de colocar o país de joelhos, com a ajuda de boçais locais, ainda fará muita água correr por debaixo da ponte. Água com todo tipo de sujeira, até sangue, quem sabe.

Vem aí mais uma etapa, o “jurgamento” da próxima quarta. Dizem que o acusado é dono de um ap. de 3 andares, com 300 metros quadrados (incluindo as duas vagas de garagem e área comum). Só que na escritura – olhe ela AQUI – não tem o nome dele, inclusive o imóvel está hipotecado pela construtora como garantia de um empréstimo, foi até penhorado pela justiça. E pior, no mesmo processo começaram apontando para um delito e agora acusam o réu de outro (leia o livro AQUI e alguns links para artigos, AQUI).

Para os algozes, é uma forma de começar bem 2018: com o pé na jaca. Para nós, sobra a limpeza da meleca. Mas só de uma parte, pois alguns desses não são eleitos, fazem uma prova, entram e ficam até morrer. Quem poderá controlá-los e colocá-los em seus devidos lugares?

Mas, pelo andar da carruagem, nem sei se deixarão limparmos o salão em outubro. Eles estão processando, às pressas, todos os possíveis candidatos que são contra esse entreguismo descarado, pois querem poder vender fácil e baratinho a fábrica de dinheiro, o sistema elétrico inteiro (com as usinas), o correio, a fábrica de aviões, a extratora de petróleo, os bancos, o tratamento da água, a tecnologia nuclear e tudo o que mais puderem, mesmo contra nossa vontade.

Aqui dentro, recebem apoio grosso dos meios de comunicação e de alguns endinheirados, iludidos por coisas e comportamentos vindos de fora e convencidos de que somos um povo de merda, que não merecemos este país e que não temos direito a uma vida decente. Faz parte do rol de acéfalos uma massa obscura formada por inúmeros perfis falsos na internet, criados por robôs e mantidos por peões mal pagos, cujo objetivo é propagar apoios fraudulentos e notícias falsas, sempre tendenciosas e com um viés que ajuda aos que estão atualmente no poder.

Alguns desses mamadores aproveitam o momento para encher as malas, outros dizem que estão numa cruzada divina, saneando o país, mas no fundo apenas estão limpando o terreno para que eles próprios sejam os beneficiados. Só cumprem ordens e borram-se de medo quando alguém que tocou uma nota diferente falece de repente, como aconteceu com um juiz e um candidato, há pouco. São só cordeiros e pensam que são lobos: serão comidos sem dó nem piedade. Nosso país transforma-se em palha, nunca a estória dos três porquinhos foi tão verdadeira.

Falta no comando uma turma que pense num país altivo e defensor de seus interesses, que goste, ame mesmo o Brasil, que não tenha medo de ameaças, que incentive uma educação de verdade, que faça progredir uma genuína classe média e não esse arremedo de sociedade que hoje temos, que lê pouco, ganha pouco, vive como pode, mora mal e que paga aluguel, plano de saúde e até escola. Uma sociedade que, ultimamente, é assombrada pelo medo das armas, cuja entrada no país foi facilitada por um deputado preso.

Precisamos de outra elite, não essa que persegue e culpa opositores, que quer apagar tudo o que foi feito de bom no país desde os anos 1950, que tenta passar a ideia de consenso e de caminho único, que quer impedir a qualquer preço toda voz dissonante. Democracia obriga a conviver com opiniões diferentes, não sabem? Não querem ouvir protestos acerca dos crimes que eles próprios estão praticando contra o futuro de todos nós. Cedo ou tarde, a verdade aparecerá, de forma medonha. Está em vias a nossa desintegração como nação.

Somos muito maiores do que pensamos, ou nos fazem pensar. Comparados ao país mais rico do mundo, somos maiores que eles, se não levarmos em conta o Alasca, que tem menos de 0,3% do povo daquele país. Com a diferença que temos 207 e eles 321 milhões de pessoas. Mas não ouvimos todo dia que somos um país superpopuloso? Aliás, quem propaga este absurdo? O Japão, por exemplo, cabe folgado dentro da Bahia e tem 120 milhões de vidas. Somos duas vezes maiores que a Índia, que conta com mais de um bilhão de almas. Aqui, não pode?

Superpopulosas são nossas cidades, que não crescem para os lados, mas para cima. Qualquer trajeto longe das áreas metropolitanas mostra grandes e mal utilizados vazios entre os municípios. Vivemos em ruas e prédios apertados, sem espaço para aqueles que não tem grana. Vai ver se a vizinha Argentina fez essa sandice. Ou mesmo os países do hemisfério norte. Estrategicamente é um erro, pois se houver uma guerra, somente algumas centenas de artefatos bélicos bastarão para matar mais da metade da população. A terra deve ser repartida entre todos, não entre poucos.

Por essas e outras, tentam de todo jeito impedir ou desencorajar os protestos marcados para a próxima quarta. É parte do roteiro. Até reclamam que não é correto bafejar o cangote dos togados. Acho que as pernas já estão tremendo.

Se alguém morrer, será unicamente por conta da resposta descontrolada daqueles que detém o comando dos capacetes, escudos e armas, pois as manifestações convocadas são ordeiras e pacíficas. Certamente haverá gente violenta infiltrada, caberá às forças discernir umas das outras, sem no entanto deixar-se levar pelos olhos embaçados de ódio.

Para finalizar e tentar trazer à lucidez os mais exaltados, trago um conto de Edmundo de Amicis, escrito em 1886, que faz parte do livro “Coração”, um clássico da literatura mundial. Por aqui, a edição mais recente é de 2011, pela Cosac Naify. O livro já é de domínio público e pode ser baixado AQUI. É importante conhecê-lo, porque ele ajudou na formação de muitos brasileiros visionários, no início do século XX. Resgata os valores de convivência, solidariedade, compaixão e cidadania, que hoje fazem tanta falta. Era, por exemplo, o livro de cabeceira de Manuel Bandeira, que comentou:

O Coração era o livro de leitura adotado na minha classe. Para mim, porém, não era um livro de estudo. Era a porta de um mundo, não de evasão, mas de um sentimento misturado, com a intuição terrificante das tristezas e maldades da vida.”

Segue o conto, que teve atualizados alguns termos, já que o texto original era em português antigo.

O pequeno patriota de Pádua 

CONTO MENSAL 
Sábado, 29

Não serei um soldado covarde, não, mas iria de muito 
melhor vontade à escola se o mestre nos contasse todos 
os dias uma história como a que nos contou hoje de 
manhã. Todos os meses, disse ele, que nos contará uma, e 
que será sempre a narração fiel dum fato heróico prati- 
cado por um rapaz. A de hoje chama-se "O pequenito pa- 
triota de Pádua", e é assim: 

Um vapor francês partiu de Barcelona, cidade de Es- 
panha, para Gênova, e iam a bordo, franceses, italianos e 
espanhóis. Havia entre eles um rapaz de onze anos, mal 
vestido, sem ninguém de família, afastando-se de todos 
os passageiros como um animal selvagem e encarando-os 
com olhar sombrio. E razão tinha para os encarar assim... 
Dois anos antes, sua mãe e seu pai, camponeses dos arre- 
dores de Pádua, tinham-no vendido ao chefe de uma com- 
panhia de saltimbancos, o qual, depois de o ter ensinado 
a dar cambalhotas, à força de empurrões, de pontapés e de 
jejuns, tinha-o conduzido através da França e da Espa- 
nha, aguilhoando-o de contínuo e trazendo-o sempre roto 
e esfomeado. Chegando a Barcelona, e não podendo mais 
suportar os maus tratos e a fome, reduzido a um estado 
de fazer compaixão, fugiu ao seu algoz a implorar a pro- 
teção do cônsul de Itália, o qual, compadecido, o embar- 
cara naquele vapor, dando-lhe uma carta para o comissá- 
rio de polícia de Gênova, por intermédio do qual, seria 
mandado aos parentes que o tinham vendido como uma 
besta de carga. O pobre rapaz estava roto e adoentado. 
Tinham-lhe dado um camarote de segunda classe- Todos 
os passageiros o observavam e alguns faziam-lhe pergun- 
tas, mas ele não respondia e parecia encarar todos com 
ódio e com desprezo, tanto o tinham irritado e entristeci- 
do as privações e as fadigas. Três dos passageiros, depois
de insistirem com perguntas, conseguiram fazê-lo falar, e 
em poucas e singelas palavras, num misto de veneziano,
espanhol e de francês, contou-lhes a sua história. Não 
eram italianos aqueles três indivíduos, mas compreende- 
ram-no, e movidos em parte pela compaixão, deram-lhe 
algum dinheiro, gracejando com ele, e estimulando-o a 
que prosseguisse na sua narrativa. Entravam naquele mo- 
mento algumas senhoras na sala, e as três, por ostentação, 
deram-lhe mais dinheiro, gritando: — Toma ! apanha! — 
E as moedas, atiradas tiniam sobre a mesa. O rapaz meteu 
tudo no bolso, resmungando uns agradecimentos com o 
seu modo brusco, mas com um olhar pela primeira vez 
risonho e afetuoso. Daí a pouco trepou para o seu beli- 
che, correu a cortina, e ficou muito quieto, pensando na 
vida. Com aquele dinheiro podia comprar a bordo algum 
alimento bom; havia dois anos que não comia pão com 
fartura... Podia comprar uma jaqueta, mal desembarcasse 
em Gênova, porque, desde que saíra de casa de seu pais, 
andava vestido de farrapos; e podia, ainda, levando o res- 
tante para casa, ter a esperança de ser acolhido pelo pai 
e pela mãe mais humanamente do que seria se chegasse 
com as algibeiras vazias. Era uma pequena fortuna aquele 
dinheiro. E nisto pensava, um pouco mais consolado, por 
detrás da cortina do beliche, enquanto os três passageiros 
palestravam sentados à mesa do jantar, no meio da sala 
da segunda classe. Bebiam e falavam de viagens e de paí- 
ses que tinham visitado, e de narração em narração vie- 
ram a falar de Itália. Principiou um a queixar-se das hos- 
pedarias, outro das grandes estradas de ferro, e, a breve 
trecho, todos juntos, afervorando-se, começaram a dizer 
mal de tudo. Este preferiria viajar na Lapônia, aquele di- 
zia não ter encontrado na Itália senão velhacos e desordei- 
ros, e o terceiro concluía que os empregados italianos não 
sabiam ler. — Um povo ignorante, afirmou o primeiro. — 
E sujo, asseverou o segundo. — E la..., exclamou o últi- 
mo, mas não pôde terminar o termo ladrão, porque uma 
tempestade de moedas se desencadeou sobre as cabeças
dos três, e, caindo-lhes pelas costas abaixo, 
passaram de cima da mesa ao pavimento com um tinido 
infernal. Levantaram-se furiosos, olhando para cima, re- 
cebendo ainda uma mão cheia de soldos pela cara. 
— Guardem o seu dinheiro, disse com desprezo o rapaz, pon- 
do a cabeça fora da cortina do beliche. Eu não aceito es- 
molas de quem insulta o meu país. 

Fonte: https://archive.org/details/coraotraddev00deam

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